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Meditação

''A dádiva de aprender a meditar é o maior presente que você pode se dar nesta vida. Porque é apenas através da meditação que você pode empreender a jornada para descobrir sua verdadeira natureza e assim encontrar a estabilidade e a confiança de que necessitará para viver e morrer bem. A meditação é o caminho para a iluminação.''
 
Sogyal Rinpoche
 
 
 

Aparências e Ilusões

 
Pessoas comuns [...] encaram o irreal como sendo real e esperam que o impermanente seja permanente.
 
Tsele Natsok Rangdröl em "Mirror of Mindfulness". Fonte: Samsara
 

Canção de Drugpa Künleg

Falhando em captar o espírito dos buddhas,
De que adianta seguir a letra do Dharma?

Sem ter um aprendizado com um mestre competente,
De que adianta ter grande talento e inteligência?

Incapaz de amar todos os seres como seus filhos,
De que adiantam as solenes preces e rituais?

Ignorante do objetivo único dos três votos,
O que é obtido então ao se quebrar cada um deles?

Falhando em realizar que o Buddha está no interior,
Que realidade pode ser encontrada no exterior?

Incapaz de ter um fluxo natural de meditação,
O que pode ser obtido através do pensamento violador?

Incapaz de regular a vida de acordo com as sessões e horas do dia,
Quem é você, a não ser um tolo confuso e indiscriminado?

Se uma perspectiva iluminada não for compreendida intuitivamente,
O que pode ser obtido por uma busca sistemática?

Vivendo sobre o tempo e energia emprestados, desperdiçando sua vida,
Quem pagará seus débitos no futuro?

Vestindo roupas grosseiras e escassas, em grande desconforto,
O que o asceta pode obter pelo sofrimento dos infernos gelados nesta vida?

O aspirante que se esforça sem uma instrução específica,
Como uma formiga escalando uma colina de areia, não realiza qualquer coisa.

Juntar instruções mas ignorar a meditação sobre a natureza da mente
É como morrer de fome quando a despensa está cheia.

O sábio que se recusa a ensinar ou escrever
É tão inútil quanto a jóia na cabeça do rei naga.

O tolo que nada sabe mas que conversa de maneira infantil, constantemente,
Apenas proclama sua ignorância para todos.

Compreendendo a essência do Dharma, pratique-o!

Milarepa

Canção do cavalo galopante do Yogi

Prostro-me aos pés de Marpa, o tradutor!

No eremitério da montanha, que é o meu corpo,
No templo do meu peito,
No topo do triângulo do meu coração,
O cavalo, que é a minha mente, voa como o vento.

Se eu tentar capturá-lo, com que laço irei pegá-lo?
Se eu tentar amarrá-lo, em que estaca irei amarrá-lo?
Se ele estiver com fome, qual alimento darei a ele?
Se ele estiver com sede, o que misturarei com sua água?
Se ele estiver com frio, entre quais paredes irei abrigá-lo?

Se eu capturá-lo, será com o laço do incondicionado.
Se eu amarrá-lo, será na estaca da meditação profunda.
Se ele estiver com fome, vou alimentá-lo com os preceitos do mestre.
Se ele estiver com sede, vou dar a água do fluxo perpétuo da atenção.
Se ele estiver com frio, vou abrigá-lo entre as paredes da vacuidade.

Como sela e freio, usarei os meios hábeis e a sabedoria.
Vou equipá-lo com a forte cilha da imortalidade.
Vou segurar as rédeas da energia que sustenta a vida.
O filho da consciência irá cavalgá-lo.
Como elmo, ele usará a atitude iluminada do Mahayana.
Sua capa será feita com o ouvir, o questionar e o meditar.
Em suas costas, ele usará o escudo da paciência.
Ele segurará a lança da visão perfeita.
Ao seu lado será amarrada a espada do conhecimento.

Se a flecha de sua consciência-armazém se curvar,
Ele a endireitará sem ódio.
Ele colocará as penas das quatro atitudes ilimitadas.
Ele colocará a ponta afiada da sabedoria.
No arco da vacuidade dos fenômenos,
Ele ajustará a profunda curvatura dos compassivos meios hábeis.

Medindo a infinidade da não-dualidade,
Ele vai atirar suas flechas pelo mundo.
Aqueles que ele vai atacar são os fiéis.
Aquele que ele vai matar é o seu apego ao eu.
E assim, como inimigo, ele vai subjugar o desejo e a delusão.
Como amigo, ele protegerá os seres sencientes dos seis reinos.

Se ele galopar, será nas planícies da grande felicidade.
Se ele persistir, atingirá o nível do Buddha vitorioso.
Indo para trás, ele corta a raiz do samsara.
Indo para frente, ele alcança a elevada terra do estado búddhico.
Montando tal cavalo, ele atinge a mais elevada iluminação.
Você pode comparar sua felicidade com isto?
Eu não desejo a felicidade mundana.

Milarepa

Assimilar o Dharma

Se pegarmos uma pedra que ficou no leito de um rio por centenas de anos e rachá-la, descobriremos que embora a superfície esteja úmida, ela está totalmente seca no meio. Esse é o exemplo da pessoa que estudou, refletiu e meditou sobre o valioso Dharma sem assimilá-lo em seu ser, sendo assim incapaz de vencer suas emoções perturbadoras.
 
Se somos incapazes de vencer essas emoções, somos como a pedra úmida no exterior mas seca por dentro. O pensamento precioso para se ter em mente é a motivação de praticar o Dharma como um remédio contra nossas próprias emoções perturbadoras. Devemos cultivar essa motivação bem neste instante, não daqui um mês ou um ano.
 
O que quer que façamos, seja andando ou sentados quietos, devemos nos observar. Devemos ser nossos próprios professores. Se praticarmos o Dharma assim, mesmo se tivermos estudado apenas quatro linhas de ensinamento, ainda haverá grande benefício.
 
Se falharmos em assimilar verdadeiramente o Dharma em nosso ser, isso serão apenas palavras vazias, embora possamos ser bem habilidosos em falar sobre ou escrever em um estilo eloquente. Já que o Dharma não penetrou de verdade em nossos corações e não temos sido capazes de domar nossas mentes, toda nossa prática do Dharma se torna sem sentido.
 

Mistério da existência

A Mente de Sabedoria de Buda é pura e misteriosa. Ela nos protege e, de maneira absoluta, é secreta e impossível de pegar; assim, não pode ser penetrada por mistérios temporários e mundanos.
 
A Mente de Sabedoria de Buda é desobstruída e sempre beneficia a todos sem intenção por meio da energia de sabedoria pura e misteriosa que permeia a todos os elementos e é sempre livre.
 
A Mente de Sabedoria de Buda tem um poder misterioso de sabedoria que nunca termina, nunca é bloqueado em lugar algum e jamais é afetado pelos fenômenos explicáveis do samsara.
 
Se pudermos reconhecer nossa própria essência secreta e misteriosa de sabedoria, que desde o início é a mesma essência secreta e misteriosa de sabedoria de Buda, então a iluminação não é mais misteriosa para nós; porque, inseparáveis de Buda, nós somos o mistério.
 
O terremoto não pode danificar o misterioso céu, não importa o quanto seu poderoso balançar revire e destrua.
 
O oceano não pode danificar o misterioso céu, não importa o quanto suas turbulentas ondas inundem e destruam.
 
O fogo não pode danificar o misterioso céu, não importa o quanto suas raivosas chamas queimem e destruam.
 
O furacão não pode danificar o misterioso céu, não importa o quanto seus agressivos ventos soprem e destruam.
 

O melhor de todos os livros

Mantenha sua percepção pura, considerando tudo que aparece como tendo pureza infinita. Então tudo irá lhe inspirar a praticar o Dharma, e tudo será uma ilustração dos ensinamentos. Como Milarepa disse:
 
O mundo ao redor é o melhor de todos os livros;
Não preciso ler um livro em preto e branco
 

Canção da Realização da Vacuidade

Escute-me, homem afortunado!

Por acaso esta vida não é incerta e ilusória?
Por acaso seus prazeres e alegrias não são como miragens?
Por acaso há alguma paz neste samsara?
Por acaso a sua falsa felicidade não é irreal como um sonho?
Por acaso o elogio e a reprovação não são tão vazios quanto um eco?
Por acaso a mente e o Buddha não são idênticos?
E o Buddha, não é o mesmo que o dharmakaya?
E o dharmakaya, não é idêntico à verdade?

Os iluminados sabem que todas as coisas são da mente;
Portanto, deve-se observar a mente, dia e noite.
Se observá-la, ainda sim nada verá.
Então, fixe sua mente nesse estado, que transcende toda visão.

Não há qualquer entidade própria na mente de Milarepa.
Eu, eu mesmo, sou o Mahamudra,
Porque não há diferença alguma entre a meditação estática e a ativa;
Não tenho necessidade de estados diferentes no caminho.
De qualquer modo que se manifestem, sua essência é a vacuidade.
Não há atenção nem desatenção em minha contemplação.

Experiencie a realização da vacuidade;
Comparado com outros ensinamentos, este é o melhor.
A prática yógica dos canais, ventos e gotas,
Os ensinamentos do karma-mudra e do mantra-yoga,
As práticas de visualização do Buddha e das quatro posições puras
São apenas os primeiros passos do Mahayana.
Praticá-los não erradica o desejo nem o ódio.

Guarde isto que canto firmemente em sua mente;
Todas as coisas são da própria mente, que é vazia.
Quem nunca se separa da experiência e da realização da vacuidade
Realiza, sem esforço, toda a prática de veneração e disciplina.
É nisto que se baseia todo mérito e todo prodígio.

Milarepa
Jetsün Mila - O Poeta do Tibet

Natureza transitória dos fenômenos

Buda ensinou no Sutra do Louvor:

O fim da acumulação é a dispersão.
O fim da construção é o colapso.
O fim do encontro é a partida.
O fim da vida é a morte.

Samsara

Mente

Lankavatara Sutra diz: "Não há aparências externas existindo de maneira sólida, tudo é a exibição da sua mente".
 
Em outras palavras, seu próprio corpo, todos os objetos que aparecem no ambiente ao seu redor, tudo que acontece e o próprio espaço - tudo é a mente.
 
O Sutra Guirlanda de Flores diz: "A mente é um artista. Essa mente-artista produz agregados e universos. Tudo são desenhos da mente".
 
Novamente, o Hevajra Tantra: "Sem a preciosa mente, não há nem seres nem budas".
 
Como Buda Shakyamuni ensinou, quando você compreende a verdadeira natureza da mente, ou rigpa, você compreende a verdadeira natureza de tudo, e aí você está além da vida e da morte.
 

Prática espiritual

Não seja muito receoso quanto ao caminho espiritual, temendo iniciar a jornada. No lugar disso, seja cuidadoso com a raiva, cobiça e ignorância. Nosso estado mental é como uma doença. Agora é a hora de nos medicarmos, não quando estivermos no leito de morte.
 
Ao decidir começar a prática espiritual, determine cuidadosamente qual caminho funciona melhor para você.
 
Cada religião tem sua própria -- e completa -- tradição, com suas próprias qualidades. Tradições espirituais nascem em resposta ao sofrimento dos seres em um lugar e tempo particulares. Cada uma oferece um método que satisfaz as necessidades de tipos variados de pessoas. Assim como um remédio não vai curar cem pessoas diferentes, o mesmo caminho espiritual não será adequado para todo mundo. O Buda ensinou 84 mil métodos para treinar a mente porque ele viu que há 84 mil maneiras de nos confundirmos.
 
Você não pode analisar um caminho espiritual, adequadamente, de um ponto de vista externo. É difícil saber o que ele tem a oferecer a menos que você comece realmente a praticar, assim como você não vai saber se você gosta de algo no cardápio até que prove. Você pode dizer que um caminho está funcionando para você se os venenos de sua mente reduzirem e a bondade amorosa e a compaixão aumentarem.
 
Todas as tradições espirituais são veículos. Se você quer chegar a algum lugar, você pode pegar uma bicicleta, carro, trem ou avião. Mas se você combinar a asa de um avião, os pedais de uma bicicleta, a direção de um carro e as rodas de um trem, você até pode chegar a seu destino; ou pode não chegar.
Mas, provavelmente, você não irá a lugar algum. Pior ainda, seu veículo pode causar um acidente, machucando você e outras pessoas.
 
Quando você encontrar uma tradição cuja eficácia tenha sido provada com o tempo e continua a funcionar para outras pessoas, experimente. Sua vida é muito curta para desperdiçá-la em um caminho da moda, não-comprovado. Se uma tradição lhe serve bem, siga-a sem distração. Pode haver muitos caminhos seguros até o topo da montanha, mas se cultivarmos o hábito de abandonar um pelo outro assim que surjam as dificuldades, iremos apenas circundar a base da montanha, nunca chegando ao nosso destino.
 
Não critique ou julgue o caminho dos outros. É um erro achar que o seu é o melhor ou o único. Embora o propósito básico da religião seja ajudar as pessoas, apego ao seu caminho ou aversão pelo dos outros vai causar divisões e conflitos. A prática espiritual deve reduzir os venenos da mente, não potencializá-los. Não use a espiritualidade como uma desculpa para se permitir o orgulho, inveja, cobiça, animosidade ou pensamentos danosos. Estas são faltas sérias, tanto faz se cometidas em um contexto espiritual ou mundano. Se o remédio que tomamos produz doença, ele não é benéfico.
 
Temos que ter cuidado para não vestir a insígnia de nossa tradição espiritual através da pregação, julgamento ou imposição de nossas idéias. No final, cada uma e qualquer religião que ensine o valor de extender a bondade e reduzir os danos beneficia aquele que a segue sinceramente. O grande estudioso Nagarjuna disse que, independentemente da tradição, fé e disciplina moral produzirão benefícios infalíveis e aumentarão as qualidades positivas da mente. Podemos preferir comida americana, japonesa, indiana ou tibetana, mas o importante é que nos alimentemos para nos nutrirmos, não que todos comam a mesma comida.
 
Se você se sentir atraído pela tradição budista, meu conselho sincero é que você procure um professor. Um professor espiritual é importante porque ele nos apresenta as causas do sofrimento e os métodos para desenraizá-las. Mas é necessário examinar a estrutura, a linhagem e o treinamento de um professor para determinar se ele é qualificado e autorizado a ensinar ou se é auto-proclamado. Ele tem uma fundação firme em estudo e prática?
 
Há alguma diferença entre suas palavras e ações? Um bom professor vai viver os ensinamentos, exemplificando o bom coração e consistentemente demonstrando compaixão, colocando as necessidades de seus alunos em primeiro plano.
 
Se escutar e aplicar os ensinamentos transforma a sua mente, pode ter certeza que a relação mestre-discípulo está te beneficiando. A confiança surge naturalmente. Na medida que sua mente muda, sua confiança aumenta. Na medida que sua confiança aumenta, você vai buscar por mais ensinamentos, aplicá-los, aprofundar sua confiança e por aí vai.
 
O objetivo de nossa prática não é ter experiências visionárias ou de clarividência, mas sim reduzir os venenos da mente e aperfeiçoar nossas qualidades positivas. Se isso está acontecendo, estamos reduzindo as causas do sofrimento. Assim que aplicamos os métodos que nosso professor nos dá, teoricamente, nós mudaremos a cada dia. Se não for assim, então a cada mês e, certamente, a cada ano. No final, mudança é a chave -- mudar o coração, descobrir a verdadeira essência da mente.
 
Não desconheço a dificuldade, mas devido a meu treinamento e prática, nenhuma de minhas experiências são insuportáveis. Conheço pessoalmente o poder das bençãos do lama e quão benéficas a contemplação e a meditação podem ser ao lidarmos com as circunstâncias da vida.
 
Quando era mais novo, sempre que recebia um ensinamento, eu revisava o material 25 vezes por dia. Hoje, às vezes, esqueço o nome de alguns parentes, mas jamais esquecerei os ensinamentos, porque eles estão tão firmemente gravados em minha mente.
 
Independentemente de quantos anos me restam, estou em paz com o fato de que vou morrer. A morte não me assusta, porque tenho confiança em minha prática espiritual e tenho tentado ajudar os outros o tanto quanto é possível. Eu sei por experiência que esses ensinamentos vão beneficiar qualquer um que aplicá-los, não apenas nesta vida, mas no momento da morte e em vidas futuras.
 
Das profundezas de meu coração eu digo a vocês: um momento de bondade para com outro ser, um ato de intenção pura, vale mais do que toda a riqueza material do mundo quando você está morrendo. Então pratique agora, enquanto você pode, na maior medida possível, em qualquer situação. Isso vai preencher o propósito supremo de sua vida e, no momento da morte, você não vai ter arrependimentos.
 
Chagdud Tulku Rinpoche, em "Change of Heart". Fonte: Samsara

Nagarjuna

 
 
 
Alguém destinado a manter os Caminhos,
Após o Nirvana do Sugata,
Aparecerá depois de transcorrido algum tempo.
Sabei que ele será dotado de grande sabedoria.
Na região sulina, na Terra das Palmeiras,
Há de surgir o monge Shriman, de grande renome.
Ele será cognominado O Naga, e destruirá
Os extremos da existência e da não-existência.
Após pregar ao mundo meu veículo
Sob a forma do insuperável Mahayana
E alcançar o estágio da Grande Felicidade,
Ele partirá para o paraíso Sukhavati.
(Lankavatara Sutra)
.
Nagarjuna, como é amplamente sabido, fundou a tradição Madhyamika (Caminho do Meio) do buddhismo. Seu aparecimento foi profetizado em numerosos textos, entre os quais o Lankavatara Sutra, o Manjushri Mulakalpa Sutra, o Mahamegha Sutra e o Mahabheri Sutra.
 
Quatrocentos anos após o nirvana do Buddha Shakyamuni, vivia no sul da Índia, em uma região chamada Vidarbha (Terra das Palmeiras), um próspero brâmane que não tinha filhos. Em um sonho, apareceu-lhe um sinal indicativo que teria um filho desde que rendesse homenagens a cem brâmanes. Ele assim o fez, rogando ardorosamente para que seu desejo, guardado no fundo do coração, viesse a se realizar. Dez meses mais tarde, nascia o menino.
 
Um adivinho, a quem o recém-nascido fora levado, dissera que a criança, embora de fato portasse sinais de ser uma pessoa excepcional, viveria apenas sete dias. Os pais, ansiosos, perguntaram se havia alguma coisa a fazer para impedir esse destino. O adivinho respondeu que, se eles desse de comer a cem pessoas, o menino viveria sete dias, e que, se fizessem oferendas a cem monges, viveria sete anos, e nada além disso poderia ser feito. Os pais completaram a segunda das oferendas sugeridas. Ao se aproximar o final dos sete anos, o menino foi enviado em viagem na companhia de vários criados, pois os pais não se sentiam capazes de suportar a cena do cadáver do filho.
 
Durante a viagem, o menino teve uma visão da divindade Khasarpana (uma das manifestações de Avalokiteshvara). Logo depois, o grupo alcançou o grande monastério de Nalanda. Próximo à morada de um brâmane chamado Saraha, o menino recitou vários versos. O brâmane, ao ouvir as estrofes, convidou o grupo a entrar e perguntou sobre a viagem e como haviam chegado até Nalanda. Um dos criados narrou a história do menino e falou de sua morte iminente. Ao que Saraha respondeu que, se o menino abandonasse a vida mundana e fizesse voto de renúncia, poderia evitar a catástrofe. O menino seguiu o conselho e foi iniciado primeiramente na Mandala de Amitabha que Conquista Yama. Em seguida, foi instruído a recitar dharanis (mantras longos). Na véspera de seu sétimo aniversário, recitou mantras especiais durante a noite toda e, assim, superou o encontro com Yama, o Senhor da Morte.
 
Ao completar oito anos, o menino tomou o voto de renúncia e iniciou seus estudos sobre as ciências tradicionais. Estudou, igualmente, os textos das escrituras de cada uma das principais escolas de pensamento buddhista. Algum tempo depois, voltou a encontrar-se com os pais. Mais tarde pediu ao mesmo brâmane Saraha que o instruísse nos ensinamentos esotéricos de Shri Guhyasamaja e recebeu os ensinamentos dos tantras adequados junto com todas as respectivas instruções orais. A seguir, depois de apresentar uma solicitação formal ao abade do mosteiro, recebeu a ordenação plena de monge e passou a ser conhecido como o monge Shrimata.
 
Por ser uma dessas pessoas por quem Manjushri vela em todas as suas vidas, o monge teve oportunidade de escutar, na íntegra, o Dharma dos sutras e dos tantras diretamente do mestre Bodhisattva Ratnamuni, manifestação de Manjushri em seu aspecto de jovem divino. Assim, o monge Shrimata tornou-se um mestre consumado do Dharma.
 
Tempos mais tarde, uma grande escassez de alimentos abateu-se sobre Nalanda, deixando a comunidade monástica sem meios de subsistência. O abade Sthavira Rahulabhadra nomeou o monge Shrimata despenseiro da comunidade monástica. Embora a carestia perdurasse por doze anos, reduzindo muito a população da região de Magadha, o monge conseguiu sustentar a comunidade monástica valendo-se de seus conhecimentos de ciência alquímica. Ele adquirira tais conhecimentos de um brâmane versado em alquimia da seguinte forma: o monge preparou, inicialmente, duas folhas de sândalo como encantamento para produzir o poder da ligeireza, conhecido como Pés de Vento.
 
Levando uma folha na mão e a outra escondida na sola do sapato, dirigiu-se à ilha distante onde habitava o brâmane e solicitou-lhe instruções sobre o "elixir que transforma metais comuns em ouro".
O brâmane pensou consigo que o forasteiro devia portar algum encantamento especial que lhe permitira chegar à ilha. Ávido por obtê-lo, disse ao monge: "Conhecimento deve se trocado por conhecimento, ou então ser remunerado em ouro". "Pois bem", respondeu o monge Shrimata, "vamos trocar conhecimentos", e entregou ao brâmane o encanto que trouxera na mão. Acreditando que o visitante não mais poderia deixar a ilha, o brâmane deu-lhe as instruções. Usando, então, a folha que guardara na sola do sapato, o monge retornou a Magadha. Assim, valendo-se do elixir alquímico, conseguiu suprir amplamente todas as necessidades essenciais da comunidade monástica de Nalanda transmutando grandes quantidades de ferro em ouro.
 
Algum tempo depois, o monge Shrimata passou a ocupar o cargo de abade de Nalanda. Prestou grande tributo aos membros da comunidade monástica que observavam adequadamente os três treinamentos (disciplina, sabedoria e meditação) e expulsou todos os monges e noviços que eram moralmente corruptos. Conta-se que baniu um total de oito mil monges.
 
Foi durante esse período, também, que um monge chamado Shamkara compôs um texto intitulado "O Ornamento do Conhecimento". Escrito em doze mil versos, representava uma tentativa de desacreditar a doutrina Mahayana. Fazendo uso da lógica, o monge Shrimata foi capaz de refutar a argumentação por completo. Também refutou muitos outros escritos que negavam a validade do Mahayana. Certa vez, em um local chamado Jatasamghata, suplantou quinhentos intelectuais não-buddhistas em um debate, convertendo-os à religião buddhista ao debelar suas visões errôneas.
 
Em uma ocasião, quando o mestre Shrimata estava ensinando a muitos seguidores o Dharma do Tripitaka (o cânone buddhista), dois jovens, que na verdade eram emanações de nagas (seres com cabeça humana e corpo de serpente), vieram ter com ele à procura do Dharma. Com a presença desses jovens, todo o ambiente impregnava-se de perfume de sândalo. Quando partiam, o perfume desaparecia e quando retornavam, voltava a aparecer. O mestre Shrimata perguntou-lhes a razão disso e os jovens responderam que eram filhos de Takshasa, rei dos nagas. Eles haviam-se ungido com a "argila dos nagas" (essência de sândalo) como imunização contra as impurezas humanas.
 
O mestre pediu então que lhe dessem um pouco de argila dos nagas para uma imagem de Tara, e que o assistissem na construção de templos. Os dois responderam que teriam de consultar o pai, partindo em seguida. Regressaram dois dias depois para dizer ao mestre Shrimata que só fariam o que ele propusera se fosse pessoalmente até a Terra dos Nagas. Ciente dos benefícios que a sua ida resultaria para todos os seres, o mestre Shrimata viajou à Terra dos Nagas, onde o rei Takshasa e outros nagas de mente nobre o presentearam com inúmeras oferendas. O mestre Shrimata pregou o Dharma aos nagas em resposta a suas solicitações, causando-lhes tanta satisfação que lhes rogaram que permanecesse entre eles para sempre. Sua resposta foi: "Como vim aqui com o propósito de obter o Prajna-paramita Sutra (Discurso sobre a Perfeição da Sabedoria) em Cem Mil Versos, bem como a argila dos nagas necessária à construção de templos e stupas (relicários), não posso permanecer agora. Talvez possa retornar no futuro."
 
Depois de ter adquirido a versão expandida da Mãe dos Vitoriosos (Prajna-paramita, a Perfeição da Sabedoria), vários textos curtos sobre Prajna-paramita e grandes quantidades de argila dos nagas, o mestre Shrimata preparou-se para retornar ao nosso mundo, Jambudvipa. Conta-se que, para assegurar o regresso do mestre Shrimata à sua terra, os nagas retiveram uma pequena parte final dos Cem Mil Versos. A parte faltante — os dois últimos capítulos do Discurso Não-condensado sobre a Perfeição da Sabedoria — foi, então, substituída pelos capítulos correspondentes do Discurso sobre a Perfeição da Sabedoria em Oito Mil Versos. Esta é a razão de os dois capítulos finais de ambos de ambos dos textos serem idênticos.
 
Depois de obter tais textos, o mestre Shrimata ampliou muito a influência da tradição Mahayana. Quando pregava o Dharma no parque do monastério, os nagas executavam atos de reverência — serpentes, por exemplo, formavam um guarda-sol para protegê-lo dos raios solares. Tornando-se o Senhor dos Nagas, o mestre Shrimata foi cognominado "O Naga". Devido à sua habilidade em difundir o Dharma do Mahayana, que se assemelhava à velocidade de arremesso e à maestria do famoso arqueiro Arjuna, ele também passou a ser conhecido como "O Arjuna". Outra versão, ainda, diz que era chamado "Nagarjuna" pois, ao executar as sadhanas (práticas meditativas) da divindade Kurukulla (Tara Vermelha), adquiriu autoridade sobre nagas como o rei Takshara e outros.
 
Nagarjuna viajou mais tarde à região de Pundravardhana onde, por meio da prática da alquimia, executou muitos atos de grande generosidade. Em especial, conferiu grande quantidade de ouro a um casal idoso de brâmanes, infundindo-lhes grande fé. O velho brâmane passou a servir Nagarjuna e a ouvir o Dharma junto a ele; após sua morte, o brâmane renasceu como o mestre Bodhinaga.
 
Nagarjuna também construiu muitos templos. Certa vez, quando se preparava para transformar em outro um grande rochedo em forma de sino, uma emanação de Tara, sob a forma de uma mulher idosa, apareceu e disse, "Em vez de fazer isso, você deveria ir à Montanha do Esplendor e praticar o Dharma". Tempos depois, ele de fato foi até esse local praticar as sadhanas de Tara.
 
Em outra ocasião, quando havia executado as sadhanas que invocavam a divindade Chandika, a própria divindade alçou Nagarjuna ao céu, tentando transportá-lo aos reinos celestiais. "Não me exercitei com o objetivo de viajar até os reinos celestiais", disse ele, "eu vos invoquei a fim de obter ajuda para a comunidade monástica Mahayana, enquanto perdurar o ensinamento do Buddha." Eles retornam, e a divindade estabeleceu-se a oeste de Nalanda, manifestando-se sob a forma de uma nobre da casta real. Nagarjuna instruiu-a, dizendo, "Uma grande estaca de madeira de khandira, tão pesada que um homem mal consegue levantá-la, foi introduzida na parece de um templo de pedra dedicado a Manjushri. Até que essa estaca se transforme em cinza, vós deveis prover a subsistência da comunidade monástica do templo".
 
Por doze anos, a nobre senhora fez oferendas de produtos de todo gênero à comunidade monástica. Durante esse período, o encarregado de despensa do monastério, um noviço de má índole, dirigia-lhe, continuamente, propostas indecorosas. A senhora não lhe dava resposta, até que um dia disse, "Se a estaca de khandira vier a se tornar cinza, nós poderemos nos unir". O noviço então ateou fogo à estaca e, quando ela se reduziu a cinzas, a divindade desapareceu.
 
Em outra ocasião, uma manada de elefantes estava ameaçando estragar a árvore bodhi em Vajrasana (Bodhgaya), sob a qual o Buddha atingiu a iluminação. Nagarjuna ergueu então duas colunas de pedra atrás da árvore sagrada, que lhe serviam de proteção por muitos anos. Quando os elefantes reapareceram, Nagarjuna construiu duas imagens de Mahakala, montadas em um leão e brandindo uma clave. Isso também surtiu efeito, embora o perigo, mais tarde, voltasse a surgir. Uma cerca de pedra foi então levantada em torno da árvore e, do lado de fora do cercado, Nagarjuna construiu 108 stupas. Estes eram enormes, cada um encimado por um stupa menor que continha relíquias dos ossos do Buddha.
 
Nagarjuna, ademais, construiu muitos templos e stupas nas seis principais cidades de Magadha — Shravasta, Shaketa, Champaka, Varanasi, Rajagriha e Vaishali — e proporcionou subsistência a muitos pregadores do Dharma.
 
Acima de tudo, Nagarjuna sabia que praticamente ninguém sabia o verdadeiro significado da coletânea do Discurso sobre a Perfeição da Sabedoria. Sabia também que, sem compreendê-lo perfeitamente, não haveria como alcançar a liberação. Proclamou, então, o Caminho do Meio, o qual afirma que o shunyata (o significado essencial da originação dependente, segundo o qual todas as coisas são inteiramente vazias de uma natureza que tenha existência própria) é totalmente coerente com os princípios que expressam uma relação infalível entre karma bom ou ruim e suas conseqüências. Em seu trabalho sobre lógica, uma coletânea em cinco partes, Nagarjuna explicitou com clareza o sentido último da sabedoria do Buddha. Esta coletânea compreende o tratado principal, o Mulamadhyamika Karika (Versos Raiz sobre o Caminho do Meio) e seus quatro braços, o Yukti Shashtika, o Shunyata Saptati, o Vaidalya Sutra e o Vigraha Vyavarttani.
 
Depois desse período, Nagarjuna ficou por seis meses no monte Ushira, localizado ao norte. Fazia-se acompanhar de mil discípulos, que sustentava com um tablete diário de um rasayana mercurial que havia preparado. Um dia, um dos dois discípulos, Siddha Singkhi, levou respeitosamente o tablete à fronte, mas não o ingeriu. Nagarjuna perguntou a razão disso e o discípulo respondeu: "Não tenho necessidade do tablete. Se lhe aprouver, mestre, faça preparar uma porção de vasilhas cheias de água". Assim, mil grandes recipientes foram preenchidos com água e colocados ali, na floresta. Siddha Singkhi acrescentou, então, uma gota de urina a cada uma das vasilhas, o que transformou todo o líquido em "elixir de outro". Nagarjuna recolheu todas as vasilhas e as escondeu em uma caverna remota e inacessível, recitando uma prece para que elas pudessem beneficiar os seres dos tempos futuros.
 
Siddha Singkhi nem sempre se mostrara tão hábil. Quando encontrou Nagarjuna pela primeira vez, era tão obtuso que não conseguia aprender sequer um único verso em um período de vários dias. Nagarjuna, então, disse-lhe, em tom jocoso, para meditar que um chifre crescia sobre sua cabeça. O discípulo assim o fez, mantendo seu objeto de meditação tão firmemente que adquiriu sinais visíveis e tangíveis de ter desenvolvido chifres. Dessa forma, foi-lhe impossível sair da caverna em que estivera meditando, pois os chifres prendiam-se nas paredes. Siddha Singkhi então recebeu instruções para meditar que os chifres não mais existiam, com o que eles desapareceram.
 
Percebendo que as características mentais de seu discípulo haviam se tornado agudamente desenvolvidas, Nagarjuna ensinou-lhe vários significados profundos dos mantras secretos. A seguir, Nagarjuna instruiu-o uma vez mais em meditação, e o discípulo por fim alcançou a realização do Mahamudra (Grande sinal).
 
O mestre viajou depois ao continente setentrional de Kurava. No caminho, em uma cidade chamada Salamana, encontrou várias crianças que brincavam na estrada. Nagarjuna profetizou que um dos meninos, de nome Jetaka, se tornaria rei. Na viagem de retorno, depois de concluir seu trabalho em Kurava, Nagarjuna voltou a se encontrar com o jovem, que já se tornara rei. Por três anos, Nagarjuna permaneceu com Kurava, que ofereceu ao mestre muitas jóias. Em reconhecimento, ele compôs para o rei uma "jóia" do Dharma, isto é o Ratnavali.
 
Foi então que viajou para o sul, tal como lhe aconselhara a emanação de Tara, para praticar meditação na Montanha do Esplendor. Aí, Nagarjuna também girou a Roda do Dharma extensamente, tanto com relação aos sutras quanto aos tantras. Foi nesta ocasião que compôs o Dharmadhatu Stava.
 
De modo geral, os escritos de Nagarjuna são divididos em três coleções:
 
1. Coleção dos Discursos: incluindo obras como Ratnavali, Suhrllekha, Prajna Shataka, Prajna Danda e Janaposhana Bindu;
 
2. Coleção dos Tributos: Dharmadhatu Stava, Lokatita Stava, Achintya Stava e Paramartha Stava;
 
3. Coleção dos Escritos sobre Lógica: o já citado Mulamadhyamika Karika e assim por diante.
 
Além desses, Nagarjuna escreveu outros tratados importantes, explicando os significados não só dos sutras, como dos tantras, realizando atividades como se, de fato, o Buddha houvesse voltado.
 
Diz-se que Nagarjuna fez três "grandes proclamações do Dharma". A primeira foi sua preservação do vinaya (disciplina monástica) em Nalanda, como explicado acima. Isso foi como o primeiro giro da Roda do Dharma pelo Bhagavan (Buddha). A segunda foi sua clara exposição do puro Caminho do Meio (Madhyamika), através da composição da coleção dos tratados sobre lógica e outros. Isso significou o segundo giro da Roda do Dharma empreendido pelo Bhagavan. A terceira grande proclamação consistiu das atividades do mestre na Montanha do Esplendor, no sul, onde compôs obras como o Dharmadhatu Stava, o que foi similar ao último giro da Roda do Dharma pelo Bhagavan.
 
Obras tão vastas em prol do Dharma e dos seres sencientes despertaram grande desprazer em Mara e nas forças do mal. Ocorreu, então, que a esposa do rei Udayibhadra teve um menino chamado Kumara Shaktiman. Anos mais tarde, a mãe deu de presente ao filho uma vestimenta fina e rara. A criança disse-lhe, "Guarde esta roupa. Vou usá-la quando chegar o tempo do meu reinado". "Você nunca governar", retrucou a mãe, "pois o mestre Nagarjuna fez com que seu pai e ele tivessem uma mesma vida. Ele não morrerá, a menos que o mestre morra". O menino foi tomado de grande tristeza e sua mãe prosseguiu: "Não chore! O mestre é um bodhisattva e, se você lhe pedir a cabeça, não recusará. Morrendo o mestre, seu pai também morrerá, e o reino será seu".
 
A criança seguiu então a sugestão da mãe, e Nagarjuna, de fato, concordou em dar-lhe a própria cabeça. Porém, por mais esforço que o menino fizesse, sua espada não era capaz de cortar o pescoço de Nagarjuna. O mestre disse ao menino, "Tempos atrás, enquanto cortava grama, ocorreu que matei um inseto. A força desse mau ato ainda permanece comigo. Assim, você poderá decepar minha cabeça servindo-se de uma lâmina de erva kusha". O menino assim fez, e conseguiu, finalmente, cortar a cabeça de Nagarjuna. O sangue que jorrou do sofrimento transformou-se em leite, e as seguintes palavras brotavam da cabeça decepada: "Daqui parto para o paraíso Sukhavati. No futuro, voltarei a entrar neste corpo".
 
O príncipe malvado lançou a cabeça a uma distância de várias léguas, temendo que voltasse a se unir ao corpo. Entretanto, como o mestre havia dominado a prática de rasayana, sua cabeça e seu corpo ficaram rígidos como pedra. Diz-se que, a cada ano, ambos estão se aproximando mais e mais, e que afinal, um dia se juntarão. Nagarjuna executará então, novamente, grandes obras em benefício do Dharma e de todos os seres.
 
O mestre Nagarjuna viveu, ao todo, seiscentos anos, assim está escrito no Manjushri Mulakalpa Sutra:
 
Depois que eu, o Tathagata, houver passado,
E quatrocentos anos houverem transcorrido,
Um monge, "O Naga", aparecerá,
Para grande fé e benefício do Dharma.
Ele alcançará o estágio da Grande Felicidade
E por seiscentos anos permanecerá vivo.
.
.
Nagarjuna. Carta a um amigo: com o comentário do Venerável Rendawa, Zhön-nu Lo-drö. Traduzido do original tibetano para inglês pelo Geshe Lobsang Tharchin e Artemus B. Engle, traduzido para o português por Manoel Vidal. São Paulo: Palas Athena, 1994. Pág. 16-24
 

Morte

Não haveria nenhuma possibilidade de chegar a conhecer a morte se ela acontecesse só uma vez. Mas felizmente a vida não é mais que uma contínua dança de nascimento e morte, um bailado de mudanças.
 
Sogyal Rinpoche em "O Livro Tibetano do Viver e do Morrer". Fonte Samsara

Transformar as dificuldades

Se há muitas condições de sofrimento, isso é uma alegria:
é uma causa para o Dharma surgir!
 
Se você é inferior aos outros, isso é uma alegria:
você não será oprimido pela opinião pública!
 
Se não tem o benefício de seus pais, isso é uma alegria:
você tem pouca base para o apego ao samsara!
 
Se está doente, isso é uma alegria:
lembrando-se da morte, sua perseverança terá brilho!
 
Se você não é bonito, isso é uma alegria:
você não necessita de um monte de amigos externos!
 
Se possui poucas provisões, isso é uma alegria:
há poucas causas para a avareza!
 
Se tem poucos amantes, isso é uma alegria:
há poucas causas para o desejo dos objetos de apego!
 
Se você tem poucos bens, isso é uma alegria:
irá florescer em prática virtuosa!
 
Se tem poucos parentes, isso é uma alegria:
você tem menos sofrimento mental!
 
Se praticar o Dharma a partir das profundezas do seu coração, é impossível que não se torne realizado! Tudo promove a realização! Novamente, praticando meditação, se você pode cozinhar algo, isso se torna comida!
 
Padampa Sangye em "Lion of Siddhas". Fonte: Samsara

Canção dos doze significados da mente

Prostro-me aos pés do meu mestre.
 
Ó bondosos protetores,
Se vocês quiserem realizar a essência da mente,
Devem praticar os seguintes ensinamentos:
A fé, o conhecimento e a disciplina
Constituem a árvore da vida da mente.
Esta é a árvore que devem plantar e cultivar.
 
O desapego, o desligamento e a visão clara
São os três escudos da mente;
São luzes a serem levadas, fortalezas na defesa,
Recibos que devem buscar.
 
A meditação, a diligência e a perseverança
São os três cavalos da mente,
Que correm rápido e voam velozes!
Se buscarem cavalos, estes são os bons.
 
A autoconsciência, a autoiluminação e o êxtase são os frutos da mente;
Plantem a semente, amadureçam o fruto,
Refinem o suco e emanará a essência.
Se desejarem frutos, estes são os que devem buscar.
 
Esta canção dos doze significados da mente
Surge da intuição yógica.
Continuem sua prática, inspirados pela fé,
Ó meus bons protetores!
 
Milarepa
Jetsün Mila - O Poeta do Tibet

As origens da tradição do treinamento da mente no Tibet

O treinamento mental ou Lo Djong, como é chamado em tibetano, é uma prática budista Mahayana comum às tradições do Sutra e do Tantra.
 
Todas as diferentes instruções do treinamento mental têm o mesmo propósito, de ajudar-nos a desenvolver e fortalecer a bodhichitta, que é o desejo de alcançar a completa iluminação e assim ser capaz de beneficiar todos os seres sencientes.
 
Não obstante, muitas linhagens de instrução do Lo djong tenham encontrado seu caminho para o Tibet através dos esforços de diferentes mestres indianos e tradutores tibetanos, a tradição mais influente foi, de longe, aquela introduzida pelo mestre indiano do séc. XI, Atisha Dipamkara Shri Jñana (982 até 1054 dc). Conhecido pelos tibetanos como Djoe Ö Dje, ou Nobre Senhor, Atisha foi o detentor das três maiores linhagens das instruções Sutrayana: a linhagem dos feitos extensos, a linhagem da visão profunda e a linhagem dos feitos poderosos.
 
A linhagem dos feitos extensos, conhecida por suas instruções sobre as atividades extensas dos Bodhisattvas, foi transmitida por Buddha Shakyamuni ao Bodhisattva Maitreya. Seus ensinamentos foram difundidos pelo grande Arya Asanga (séc. IV dc) e seus discípulos.
 
A Linhagem da Visão Profunda está associada aos ensinamentos profundos sobre a vacuidade. Suas instruções foram transmitidas pelo Senhor Buddha ao Supremo Bodhisattva Manjushri que então as revelou para Arya Nagarjuna (séc II dc). Depois de Nagarjuna, os ensinamentos sobre a vacuidade foram passados adiante por sucessivas gerações de discípulos da escola filosófica Madhyamika do budismo, ou “Caminho do Meio”.
 
A linhagem dos Feitos Poderosos inclui o corpo inigualável de ensinamentos para desenvolver e realizar a bodhichitta chamado “Igualar e Trocar o Eu por Outros”. Esta linhagem também descende do Bodhisattva Manjushri, que transmitiu as instruções ao grande santo Mahayana Shatideva (séc. VIII dc). As instruções do treinamento mental ensinadas pelo Senhor Atisha estão intimamente ligadas a essa linhagem.
 
O Senhor Atisha recebeu as instruções do Treinamento Mental de três mestres: Guru Suvarnadvipa, ou como é conhecido no Tibet, Lama Serlingpa, que vivia na ilha de Sumatra; e dois mestres indianos, Dharmarakshita e Yogui Maitri. O que teve mais influência entre os três foi Lama Serlingpa. Atisha viajou a Sumatra para conhecer seu mestre, e permaneceu lá por doze anos para servi-lo e estudar sob sua orientação. Ele também teve muitas visões de divindades, incluindo Tara, de quem recebeu instruções das práticas do Treinamento Mental.
 
Embora o Senhor Atisha tenha ensinado amplamente, tanto o Sutrayana quanto o Tantrayana no Tibet, ele deu as instruções completas sobre o Igualar e Trocar o Eu por Outros confidencialmente, apenas para seu discípulo principal, Dromtömpa Guielway Jungne (1005 – 1064). Drom Rinpoche, por sua vez, ensinou-as a quatro de seus discípulos. Três deles ficaram conhecidos como os Irmãos Kadampa: Potowa Rinchen Sel (1027-1105), Tchengawa Tsultrim Bar (1038-1103), e Puchungwa Shönu Guialtsen (1031 -1107).
 
O quarto foi o kadampa Gueshe Kampa Lungpa (1023-1115).
Os ensinamentos da tradição Kadampa, que foram instituídos pelos seguidores do Senhor Atisha, estão preservados hoje principalmente na tradição Guelugpa. Por essa razão é que os Guelugpas são muitas vezes chamados de “Novos Kadampas”.
 
Entre os Três Irmãos Kadampa, o grande erudito Potowa foi o que ensinou mais extensivamente as instruções Mahayana. Mas ele transmitiu as mais sagradas instruções do Lo Djong apenas para três discípulos: Langri Tangpa (aquele de Langri Tang) (1054-1123), Shawo Gangpa (1067-1132) e Sharawa Yönten Drak (1070-1141).
 
Gueshe Langri Tangpa Dordje Seng-gue foi um grande mestre que fez dos ensinamentos Lo Djong, a sua prática principal e através deles atingiu a verdadeira bodhichitta. Ele desenvolveu seu próprio método de ensinar as instruções do Lo Djong, organizando-as em oito tópicos. Embora Gueshe Langri Tangpa não tenha ensinado as instruções mais esotéricas do Lo Djong abertamente, ele transmitiu seu método de oito tópicos amplamente ao público. Langri Tangpa compôs o poema “O Treinamento Mental em Oito Versos”,explicado neste livro.
 
“A Antologia dos Preciosos Textos Kadampa” contém a descrição de Gueshe Langri Tangpa desses oito tópicos sob três formas:
 
1. uma série de nove provérbios curtos;
2. oito declarações em prosa, levemente mais longas;
3. os oito versos propriamente ditos.
 
O nono e último provérbio é “Fazer súplicas e preces aspiracionais” Os praticantes são estimulados a rezar por bênçãos das Três Jóias, para que obtenham realizações verdadeiras dos ensinamentos Lo Djong. Este provérbio também contém a instrução para concluir qualquer ação virtuosa realizada por ter se meditado nos oito versos como uma prece aspiracional e de pedidos. Fazer isso ajuda-nos a plantar uma semente interior para sermos capazes de desenvolver a verdadeira Bodhichitta. Os praticantes devem rezar também para que, nas vidas futuras, sejam afortunados o bastante para encontrar mestres espirituais que continuem a instruí-los nos ensinamentos únicos da tradição Lo Djong.
 
Embora os “Oito Versos” sejam atualmente conhecidos na forma de uma prece aspiracional, foram compostos originalmente por Gueshe Langri Tangpa na forma de ordens de comando (regras de procedimento) diretas para desenvolver uma determinada prática. Ao invés de “que eu possa...”, uma expressão de aspiração, as frases estavam no imperativo. Por exemplo, o primeiro dos Oito Versos originalmente dizia:
 
Treine-se para sempre estimar todos os seres sencientes,
Através de considerá-los mais preciosos do que uma jóia que satisfaz desejos,
E de aspirar pelo objetivo supremo.
 
De acordo com a “Antologia dos Preciosos Textos Kadampa”, os versos foram modificados para seu formato atual pelo mestre Kadampa Sang Tchenpa Dharma Sönam (final do séc XII dc).
 
Tchekawa Yeshe Dordje (1101-1175) foi um praticante devotado e entusiasta das instruções Lo Djong. Ele primeiramente as aprendeu ao ouvir um ensinamento sobre O treinamento Mental em Oito Versos, de Gueshe Langri Tangpa. Quando Tchekawa saiu em busca do Gueshe, descobriu que ele já havia morrido. Ele então procurou o mestre Sharawa e pediu a ele as instruções completas do Treinamento Mental.
 
Após meditar sinceramente nos ensinamentos, Tchekawa atingiu a verdadeira bodhichitta.
Gueshe Tchekawa foi o primeiro mestre Kadampa que apresentou os ensinamentos mais esotéricos do Lo Djong a um número maior de seguidores. Ele assim o fez, porque entendeu que caso os ensinamentos permanecessem secretos, não beneficiariam muitas pessoas.
 
Os ensinamentos foram finalmente escritos para criar o texto conhecido hoje como “As Instruções do Treinamento Mental em Sete Pontos”.
 
Gueshe Tchekawa também juntou as instruções do “Treinamento Mental em Oito Versos” com as “Instruções em Sete Pontos” e as tornou uma única tradição de ensinamentos.
 

Deus no Budismo

O Buda, muito longe de negar que havia um Absoluto, garantiu que aqueles que alcançassem a iluminação deveriam se fundir com Isso e assim perceber a Realidade em oposição ao mundo das ilusões e dos fenômenos. O que ele realmente disse, contudo, que tem levado pessoas a acusarem-no de ateísmo, é que não temos nenhum meio de expressar qualquer coisa sobre Isso. Palavras pertencem ao universo dos fenômenos e são aplicáveis apenas à ele. Quando alguém vai além dos fenômenos, em direção à Realidade, palavras precisam obrigatoriamente ser deixadas para trás. Nenhum ensinamento, nenhuma descrição, nenhum pensamento podem expressar o Absoluto -- mas podemos experimentá-lo, se suficientemente evoluídos.
 
O que Buda combateu foram as numerosas tentativas que foram feitas, estão sendo feitas e continuarão a ser feitas, de dizer que o Absoluto é isso ou aquilo, um Deus pessoal, um Criador, um Deus-Pai. Ele insistentemente recusou responder qualquer pergunta sobre o assunto porque isso era inexprimível em palavras. Ele não iria permitir a seus discípulos imaginar um Absoluto a semelhança deles, como é a tendência do homem em todo lugar. Ele assinalou sutilmente que é melhor se ajustar para tentar alcançar a iluminação e, assim, experimentar o Absoluto por si próprio, em vez de perder tempo tentando ineficazmente falar sobre isso, já que nada que possa ser dito sobre Isso pode ser verdade em absoluto. Palavras iriam inevitavelmente modificá-Lo e moldá-Lo, resultando no máximo em uma aproximação grosseira. Palavras podem ser verdadeiras apenas em certo nível, mas apenas nesse nível, portanto serão apenas verdades relativas. Assim, como um entendimento que só funciona por meio de palavras pode conter o que não pode ser colocado em palavras? Apenas pela experiência direta.
 
Se esse fato tivesse sido assimilado, às custas do orgulho humano, teria havido muito menos intolerância, violência e sofrimento cometidos em nome da religião, entre os vários adeptos de seus seus próprios credos; todos afirmando de maneira confiante e dogmática que somente eles receberam a Verdade e que todos os outros estão errados e devem ser salvos de sua ignorância voluntária.
 
...
 
Então, se não há nenhum Deus no sentido de um Deus pessoal -- ou se for compreendido que conceitos de um Deus pessoal, um Criador ou um Deus-Pai, são apenas relativamente verdadeiros e adequados apenas a alguns estágios do desenvolvimento humano -- porque há tantas referências aos "deuses" [no budismo tibetano], sugerindo toda uma hierarquia?
 
A palavra páli "deva" é traduzida como "deus", mas na verdade significa "espírito", um ser de um reino superior que, no budismo, pode influenciar seres humanos, ajudar e protegê-los. A Terra não é o único mundo de seres da cosmologia budista. Há incontáveis universos em diferentes planos de existência, isto é, em diferentes estágios de desenvolvimento (espiritual). Alguns são mais elevados que nós (que somos a maioria). Alguns são inferiores. Há muitas referências a seres humanos renascendo em reinos superiores ou inferiores.
 
Mas, no budismo, não há lugar para a hierarquia massiva da religião Hindu, que acrescentou o próprio Buda a essa hierarquia (até os cristãos fizeram Dele um dos seus santos), nem para a Trindade de Criador, Preservador e Destruidor, nada exceto um Absoluto inexprimível. Em Sua direção as pessoas estão evoluindo ou involuindo, alguns se tornando espíritos de planos superiores, outros afundando em mundos inferiores. E todos pertencem ao mundo dos fenômenos, não à Realidade. Apenas o Absoluto é Real. E nem podemos realmente dizer isso sem declarar algo menor que a Verdade. Mas Ela está lá para ser realizada por alguém com o desejo e determinação como os de Milarepa.
 
...
 
Todo ser humano, todo ser, é um Buda em potencial. Depende de cada um realizar sua própria Natureza Búdica.
 
Lobzang Jivaka em "The Life of Milarepa". Fonte: Samsara

A essência mais profunda

Ninguém pode morrer sem medo e em completa segurança sem ter atingido a realização da natureza da mente. Porque só essa realização, aprofundada em anos de prática continuada, pode manter a mente estável no confuso caos do processo da morte. De todas as maneiras que conheço de ajudar a realizar a natureza da mente, a prática de Dzogchen, a mais antiga e direta corrente de sabedoria dentro dos ensinamentos do buddhismo [nyingmapa] e a própria fonte dos ensinamentos do bardo, é a mais clara, mais eficaz e relevante para as circunstâncias atuais.
 
As origens do Dzogchen remontam ao Buddha Primordial, Samantabhadra, que o transmitiu a uma linha ininterrupta de grandes mestres que chega até o presente. Centenas de milhares de indivíduos na Índia, no Himalaia e no Tibet atingiram a realização e a iluminação através dessa prática. Há uma maravilhosa profecia segundo a qual "nesta era de trevas, a essência do coração de Samantabhadra brilhará como fogo". [...]
 
O Dzogchen não foi amplamente difundido e ensinado no Tibet, e por algum tempo muitos dos maiores mestres não o ensinaram no mundo moderno. Por que, então, eu o estou ensinando agora? Alguns dos meus mestres me disseram que este é o momento de se difundir o Dzogchen, a época a que se refere a profecia. Sinto também que seria falta de compaixão não partilhar com as pessoas a existência de sabedoria tão extraordinária. Os seres humanos chegaram a um ponto crítico da sua evolução e esta época de extrema confusão pede um ensinamento com o mesmo grau de poder e claridade. Descobri também que as pessoas de hoje querem um caminho que elimine o dogma, fundamentalismo, exclusivismo, metafísica, complexa e parafernália cultural exótica, um caminho ao mesmo tempo simples e profundo, que não precise ser praticado em ashrams ou mosteiros, mas possa integrar-se à vida do dia-a-dia e ser praticado em qualquer lugar.
 
O que é, então, o Dzogchen? O Dzogchen não é apenas um ensinamento, nem mais uma filosofia, nem mais um elaborado sistema, nem mesmo uma sedutora série de técnicas. Dzogchen é um estado, o estado primordial, aquele estado totalmente desperto que é o coração e a essência de todos os buddhas e de todos os caminhos espirituais, e o ápice da evolução espiritual de um indivíduo. Dzogchen é freqüentemente traduzido como "Grande Perfeição". Prefiro deixar a palavra sem traduzir, porque Grande Perfeição traz esse sentido do perfeito que temos de lutar para conseguir, meta que fica no final de uma longa e árdua jornada. Nada podia estar mais distante do significado de Dzogchen: o estado já perfeito em si mesmo da nossa natureza primordial, que não precisa de "aperfeiçoamento", uma vez que, como o céu, sempre foi perfeito desde o começo.
 
Todos os ensinamentos buddhistas [do Dzogchen] são explicados em termos de "Base, Caminho e Fruição". A Base do Dzogchen é esse estado fundamental e primevo, nossa natureza absoluta que já é perfeita e está sempre presente. Patrul Rinpoche diz: "Nem é para ser buscada externamente, nem é algo que você não tinha antes ou que precise nascer agora de um modo novo em sua mente". Do ponto de vista da Base — o absoluto — nossa natureza é a mesma que a dos buddhas, e nesse nível não há que ouvir ensinamentos ou fazer prática — nem um pingo, dizem os mestres.
 
Não obstante, temos de entender, os buddhas tomaram um caminho e nós tomamos outro. Os buddhas reconhecem sua natureza original e tornam-se iluminados; nós não a reconhecemos e por isso nos tornamos confusos. Nos ensinamentos, esse estado de coisas é chamado "Uma Base, Dois Caminhos". Nossa condição relativa é que nossa natureza intrínseca está obscurecida e precisamos seguir os ensinamentos e a prática para voltarmos à verdade: esse é o Caminho do Dzogchen. Finalmente, atingir a realização da nossa natureza original é atingir a completa liberação e tornar-se um buddha. Essa é a Fruição do Dzogchen, que de fato é possível ao praticante em uma só vida, quando ele ou ela a isso dedica seu coração e mente.
 
Os mestres Dzogchen são agudamente conscientes dos perigos de confundir o absoluto com o relativo. Quem não consegue compreender essa relação pode subestimar ou até desprezar os aspectos relativos da prática espiritual e a lei kármica de causa e efeito. No entanto, àqueles que apreendem verdadeiramente o significado do Dzogchen terão um respeito ainda mais profundo pelo karma, bem como uma apreciação mais intensa e premente da necessidade de purificação e de prática espiritual. Isso se dará porque eles poderão perceber a vastidão daquilo que há neles e que foi obscurecido, o que os fará empenhar-se de maneira mais fervorosa, e com disciplina sempre fresca e natural, em remover o que quer que se interponha entre eles e sua verdadeira natureza.
 
Os ensinamentos Dzogchen são como um espelho que reflete a Base da nossa natureza original com pureza tão elevada e liberadora, e claridade tão imaculada, que constituem uma proteção ao perigo de ficar presos em qualquer forma de entendimento conceitualmente fabricado, mesmo que sutil, convincente ou sedutor.
 
Qual é então, para mim, a maravilha do Dzogchen? Todos os ensinamentos levam à iluminação, mas a singularidade do Dzogchen é que, mesmo na dimensão relativa dos ensinamentos, a sua linguagem nunca macula o absoluto com conceitos; deixa-o intacto em sua simplicidade desnuda, dinâmica e majestosa, e mesmo assim fala dela a qualquer um de mente aberta em termos tão vívidos e expressivos que, mesmo antes de nos iluminarmos, somos agraciados com o vislumbre mais forte que podemos ter do esplendor do estado desperto.
 
A Visão
Tradicionalmente, o treinamento prático do Caminho do Dzogchen é descrito com muita simplicidade em termos de Visão, Meditação e Ação. Ver diretamente o estado absoluto, a Base do nosso ser, é a Visão; o modo de estabilizar essa Visão e fazer dela uma experiência contínua é Meditação; integrar a Visão à nossa realidade total e à nossa vida é o que chamamos Ação.
O que é então a Visão? É nada menos que ver o estado real das coisas como elas são; saber que a verdadeira natureza da mente é a verdadeira natureza de tudo; e atingir a realização de que a verdadeira natureza da nossa mente é a verdade absoluta. Dudjom Rinpoche diz: "A visão é a compreensão da consciência intrínseca desnuda, dentro da qual tudo está contido: a percepção sensorial e a existência fenomênica, o samsara e o nirvana. Essa consciência intrínseca e imediata tem dois aspectos: vacuidade como o absoluto, e aparência ou percepção como relativo."
O que isso significa é que todo o conjunto das possibilidades das aparências e todos os possíveis fenômenos em todas as diferentes realidades — todos eles, sem exceção, seja no samsara ou no nirvana — sempre foram e sempre serão perfeitos e completos, dentro da vasta e ilimitada extensão da natureza da mente. Mais ainda, que a essência de tudo seja vazia e "pura desde o início", sua natureza é rica em nobres qualidades, prenhe de todas as possibilidades, um campo ilimitado, incessante e dinamicamente criativo que é sempre perfeito e espontâneo.
Você poderá perguntar: "Se a realização da Visão é a realização da natureza da mente, com o que se parece então essa natureza da mente?" Imagine um céu, vazio, pleno de espaço e puro desde o início; sua essência é assim. Imagine um sol, luminoso, claro, sem obstrução e espontaneamente presente; sua natureza é assim. Imagine esse sol brilhando sobre nós e todas as coisas, penetrando em todas as direções; sua energia, que é a manifestação da compaixão, é assim: nada pode detê-la e ela penetra em toda parte.
Você também pode pensar na natureza da mente como um espelho com cinco diferentes poderes ou "sabedorias". Sua abertura e vastidão é a "sabedoria do espaço que tudo abrange", o útero de onde provém a compaixão. Sua capacidade de refletir com detalhes precisos o que se põe diante dela é a "sabedoria do espelho". Sua ausência fundamental de propensão para qualquer impressão é a "sabedoria da equanimidade". Sua habilidade de distinguir claramente e sem confundir de maneira alguma os vários fenômenos diferentes que surgem é a "sabedoria do discernimento". E seu potencial de ter tudo já consumado, aperfeiçoado e espontaneamente presente é a "sabedoria que tudo realiza".
No Dzogchen, a Visão é introduzida ao estudante diretamente pelo mestre. É esse modo direto de fazer a introdução que caracteriza o Dzogchen e o faz tão singular.
O que é introduzido ao estudante na introdução é a experiência direta da mente de sabedoria dos buddhas, através da bênção do mestre que encarna a completa realização deles. Para estar pronto para receber a introdução, o aluno deve ter chegado a um ponto em que tenha, como resultado de aspirações passadas e do karma purificado, a abertura da mente e também a devoção para fazê-lo receptivo ao verdadeiro significado do Dzogchen.
Como a mente de sabedoria dos buddhas pode ser introduzida? Imagine a natureza da mente como seu próprio rosto; está sempre com você, mas não pode vê-lo sem ajuda. Agora imagine que nunca viu um espelho antes. A introdução feita pelo mestre é colocar subitamente um espelho diante de você, no qual pela primeira vez vai ver seu próprio rosto refletido. Tal como seu rosto, a pura percepção de Rigpa [a natureza da mente, a consciência primordial] não é algo "novo" que o mestre lhe está dando, ou algo que nunca tenha tido antes, e nem algo que teria a possibilidade de achar fora de si mesmo. Sempre foi seu e sempre esteve com você, mas até aquele momento, surpreendente, você nunca o tinha visto de maneira direta.
Patrul Rinpoche explica que "de acordo com a tradição especial dos grandes mestres da linhagem dessa prática, a natureza da mente, o rosto de Rigpa, é introduzido precisamente na dissolução da mente conceitual". No momento da introdução o mestre atravessa a mente conceitual, deixando à vista o estado puro de Rigpa revelando explicitamente sua verdadeira natureza.
Nesse poderoso momento tem lugar uma fusão de mente e corações e o aluno tem uma incontestável experiência ou vislumbre da natureza de Rigpa. Nesse mesmo e único instante, o mestre apresenta e o estudante reconhece. À medida que o mestre dirige suas bênçãos a partir da sabedoria de seu Rigpa para o coração do Rigpa do seu aluno, mostra diretamente a este a face original da natureza da mente,
Para que a introdução do mestre seja plenamente eficaz, no entanto, condições e ambiente corretos devem ser criados. Apenas uns poucos indivíduos na história, devido ao seu karma purificado, puderam reconhecer e iluminar-se num instante; por isso a introdução deve quase sempre ser precedida pelas práticas preliminares que apresento a seguir. São essas práticas preliminares que purificam e removem os obscurecimentos da mente ordinária, trazendo você ao estado em que seu Rigpa pode ser revelado.
Primeiro, a meditação, antídoto supremo da distração, traz a mente de volta e permite que ela se assente no seu estado natural.
Segundo, práticas profundas de purificação e o fortalecimento do karma positivo, através da acumulação de mérito e sabedoria, começam a enfraquecer e dissolver os véus intelectuais e emocionais que obscurecem a natureza da mente. Como escreveu meu mestre Jamyang Khyentse: "Se os obscurecimentos forem removidos, a sabedoria de Rigpa de cada um brilhará naturalmente". Essas práticas de purificação, chamadas Ngöndro em tibetano, devem ser cuidadosamente observadas para produzir uma ampla transformação interior. Elas envolvem o ser inteiro — corpo, fala, mente — e começam com uma séria de profundas contemplações sobre:
      a singularidade da vida humana;
a contínua presença da impermanência e da morte;
a infalibilidade da causa e efeito das nossas ações;
o ciclo vicioso de frustração e sofrimento que é o samsara.
Essas reflexões inspiram um forte sentido de "renúncia", um desejo urgente de emergir do samsara e seguir o caminho da liberação que é a base para as práticas específicas de:
      tomar refúgio no Buddha, na verdade dos seus ensinamentos [Dharma] e no exemplo dos seus praticantes [Sangha], despertando assim confiança e fé em nossa própria natureza búddhica interior;
gerar compaixão (bodhichitta — o coração da mente iluminada) e treinar a mente para trabalhar consigo mesmo e com os outros, bem como com as dificuldades da vida;
remover os obscurecimentos e a "corrupção" mediante as práticas de visualização e de mantras voltadas à purificação e à cura;
acumular mérito e sabedoria, desenvolvendo generosidade universal e criando circunstâncias auspiciosas.
 
Todas essas práticas se desenvolvem e estão centradas no Guru Yoga, que é a prática mais decisiva, instigante e poderosa de todas, indispensável à abertura do coração e da mente para a realização do estado de Dzogchen.
 
Terceiro, uma investigação meditativa especial sobre a natureza da mente e dos fenômenos, que sacia a incansável fome da mente de pensa e procurar, bem como sua dependência de conceitualização, análise e referência incessantes, e desperta uma compreensão íntima da natureza da vacuidade.
Nunca é demais enfatizar a importância dessas práticas preliminares. Elas devem trabalhar em conjunto e sistematicamente para inspirar o estudante a despertar para a natureza da mente, e habilita-lo a estar pronto e preparado quando o mestre escolher o momento de mostrar a ele ou ela a face original de Rigpa.
Nyoshul Lungtok, que depois tornou-se um dos maiores mestres Dzogchen dos nossos tempos, acompanhou seu professor Patrul Rinpoche por cerca de dezoito anos. Todo esse tempo eles foram quase inseparáveis. Nyoshul Lungtok estudou e praticou de forma particularmente dedicada, e acumulou purificação, mérito e prática em abundância; ele estava pronto para reconhecer Rigpa, mas ainda não havia recebido a instrução final. Então, numa noite inesquecível, Patrul Rinpoche deu-lhe essa instrução. Aconteceu quando estavam juntos num eremitério das montanhas acima do Mosteiro Dzogchen. A noite era muito bonita. O céu azul escuro estava límpido e as estrelas brilhavam muito. O som da sua solidão era acentuado pelo latido de um cachorro do mosteiro distante.
 
Patrul Rinpoche estava estirado no chão, fazendo uma prática de Dzogchen. Chamou Nyoshul Lungtok, perguntando: "Você disse que não conhece a essência da mente?"
Nyoshul Lungtok adivinhou pelo tom da sua voz que aquele era um momento especial e balançou a cabeça confirmando, na expectativa.
— "Não há nada a respeito, de fato", disse Patrul Rinpoche distraidamente, acrescentando, "Meu filho, venha cá e repouse aqui como seu velho pai". Nyoshul Lungtok estirou-se ao seu lado.
— "Está vendo as estrelas no céu?", perguntou Patrul Rinpoche.
— "Sim".
— "Está ouvindo os cães latindo no Mosteiro Dzogchen?"
— "Sim".
— "Bem, a natureza do Dzogchen é isso: simplesmente isso".
Nyoshul Lungtok nos conta o que aconteceu então: "Nesse instante, cheguei a uma certeza de realização dentro de mim. Tinha sido liberado dos grilhões do 'é' e do 'não é'. Atingira a realização da sabedoria primordial, a união desnuda da vacuidade e da consciência intrínseca. Fui introduzido a essa realização por sua bênção, como disse o grande mestre indiano Saraha: 'Aquele em cujo coração entravam as palavras do mestre, vê a verdade como um tesouro na palma de sua própria mão.'"
Naquele instante, tudo estava em seu lugar; o fruto de todos os anos de aprendizado, purificação e prática de Nyoshul Lungtok havia nascido. Ele obteve a realização da natureza da mente. Não havia nada extraordinário, esotérico ou místico nas palavras que Patrul Rinpoche usara; de fato, eram absolutamente comuns. Mas além das palavras, alguma coisa a mais estava sendo comunicada. O que ele revelava era a natureza inerente de tudo, que é o verdadeiro significado do Dzogchen. Naquele momento ele já havia conduzido Nyoshul Lungtok diretamente àquele estado pelo poder e a bênção de sua realização.
 
Mas os mestres são muito diferentes, e eles podem usar todo tipo de meio hábil para provocar essa mudança de consciência. O próprio Patrul Rinpoche foi introduzido à natureza da mente de um modo muito distinto, por um mestre excêntrico de nome Do Khyentse. Esta é a tradição oral que escutei dessa história.
 
Patrul Rinpoche estivera fazendo uma prática avançada de yoga e visualização, e ficara emperrado; nenhuma das mandalas das deidades aparecia com clareza na sua mente. Um dia ele se aproximou de Do Khyentse, que havia acendido uma fogueira ao relento e estava sentado diante dela, tomando chá. No Tibet, quando você vê um mestre pelo qual tem profunda devoção, tradicionalmente começa a prostrar seu corpo no chão como sinal do seu respeito. Quando Patrul Rinpoche começou a prostrar-se, ainda à distância, Do Khyentse o reconheceu e rosnou, ameaçadoramente: "Ei, seu cão velho! Se você tem coragem, venha até aqui!" Do Khyentse era um mestre muito impressionante. Parecia um samurai, com seus cabelos longos, suas roupas vistosas e sua paixão por montar belos cavalos. À medida que Patrul Rinpoche continuava a fazer reverências e se aproximava, Do Khyentse, praguejando o tempo todo, começou a atirar nele seixos e depois pedras maiores. Quando finalmente chegou ao seu alcance, Do Khyentse começou a socá-lo até faze-lo desmaiar.
 
Quando Patrül Rinpoche voltou a si estava num estado de consciência inteiramente diferente. As mandalas que com tanto esforço tentara visualizar manifestavam-se, espontaneamente, diante dele. Cada maldição e insulto de Do Khyentse havia destruído os últimos remanescentes da mente conceitual de Patrul Rinpoche e, cada pedra que o atingiu havia aberto os centros de energia e canais sutis de seu corpo. Por duas semanas maravilhosas as visões das mandalas não o abandonaram.
Mesmo sabendo que as palavras e os conceitos fracassam quando tentamos descrevê-la, vou procurar dar uma idéia do que é a Visão e do que acontece quando Rigpa é revelado diretamente.
Dudjom Rinpoche diz: "Esse momento é como tirar um capuz de sua cabeça. Que amplitude infinita e que alívio! Esse é o ver supremo: ver o que não foi visto antes". Quando você "vê o que não foi visto antes" tudo se abre, se expande e se torna fresco, claro, transbordante de vida, animado de encantamento e frescor. É como se o teto de sua cabeça se desprendesse, ou se um bando de pássaros repentinamente revoasse de um ninho escuro. Todas as limitações se dissolvem e desaparecem como se, dizem os tibetanos, um selo tivesse rompido.
 
Imagine-se morando numa casa no topo do mundo. De repente, toda a estrutura da casa que limitava sua visão simplesmente desaparece e você pode ver tudo ao seu redor, tanto dentro como fora. Mas não há alguma "coisa" para ver; o que acontece não tem qualquer referência no mundo ordinário; é uma visão total, completa, sem precedentes, perfeita.
 
Dudjom Rinpoche diz: "Seus inimigos mais mortais, aqueles que o mantiveram amarrado ao samsara por incontáveis vidas, desde tempos imemoriais até o presente, são o agarrar e o agarrado". Quando o mestre o introduz e você os reconhece, "esses dois são completamente consumidos como penas numa fogueira, não deixando vestígios". Agarrar e agarrado, a coisa agarrada e aquele que agarra são completamente liberados a partir mesmo da sua base. As raízes da ignorância e do sofrimento são totalmente cortadas e todas as coisas aparecem como reflexos num espelho, transparentes, bruxuleantes, ilusórias e com a qualidade de um sonho.
 
Quando você chega naturalmente a esse estado de meditação, inspirado pela Visão, pode permanecer aí por um longo tempo sem qualquer distração ou esforço especial. Então não há nenhuma coisa de nome meditação para proteger ou sustentar, uma vez que você está no fluxo natural da sabedoria Rigpa. E, quando está nele, perceberá que é como se tivesse sido sempre assim, e é. Quando brilha a sabedoria de Rigpa, nem uma sombra de dúvida permanece e um entendimento completo e profundo surge diretamente e sem qualquer esforço.
Você descobrirá que todas as imagens que dei, bem como as metáforas que tentei usar, estão fundidas em uma experiência da verdade que abrange tudo. A devoção está nesse estado, e a compaixão também está nesse estado, e todas as sabedorias, bênção, claridade e ausência de pensamentos, porém não separadas umas das outras, mas integradas e ligadas de maneira inquebrantável num mesmo sabor. Esse é o momento do despertar. Um profundo senso de humor brota de dentro e você sorri, divertido com a inadequação dos seus antigos conceitos e idéias sobre a natureza da mente.
O que surge disto é uma crescente, tremenda e inabalável certeza e convicção de que "é isto". Não há nada além a procurar, nada a mais a ser esperado. Essa certeza da Visão é aquilo que deve ser aprofundado, de lampejo a lampejo, sobre a natureza da mente, e estabilizado pela contínua disciplina da meditação.
 
A Meditação
Então o que é meditação do Dzogchen? É simplesmente repousar, sem distrações, na Visão, uma vez que ela tenha sido introduzida. Dudjom Rinpoche a descreve: "A meditação consiste em ficar atento a esse estado de Rigpa, livre de todas as construções mentais, embora permanecendo totalmente relaxado, sem qualquer distração e sem agarrar-se a nada. Por isso se diz que a "meditação não é se esforçar, mas permitir que a própria meditação nos assimile naturalmente".
O ponto central da prática de meditação Dzogchen é fortalecer e estabilizar Rigpa, permitindo que ele cresça até sua plena maturidade. A mente ordinária e habitual, com suas projeções, é extremamente poderosa. Ela fica voltando e toma conta de nós quando estamos desatentos e distraídos. Como Dudjom Rinpoche costumava dizer: "No momento, nosso Rigpa é como um bebezinho desamparado no campo de batalha onde os pensamentos irrompem com força". Gosto de dizer que temos de começar sendo a ama-seca do nosso Rigpa dentro do ambiente seguro da meditação.
Se a meditação é simplesmente continuar o fluxo de Rigpa após a introdução, como sabemos quando é Rigpa e quando não é? Fiz essa pergunta a Dilgo Khyentse Rinpoche e ele respondeu com sua simplicidade característica: "Se você está num estado inalterado, é Rigpa". Se não estamos dentro da mente que de algum modo manipula e distorce a realidade, mas apenas repousando num estado inalterado de consciência pura e original, então isso é Rigpa. Se há qualquer trama ou maquinação de nossa parte, alguma forma de manobra ou de apego, já não se trata de Rigpa. Rigpa é um estado em que não há mais qualquer dúvida: não há na verdade algo como uma mente que possa duvidar: você vê diretamente. Se está nesse estado, certeza e confiança completas e naturais vibram com o próprio Rigpa, e é assim que você sabe.
A tradição do Dzogchen é de precisão extrema, já que quanto mais fundo você vai, mais sutis são os enganos que podem surgir, e o que está em jogo é o conhecimento da realidade absoluta.
Mesmo após a introdução, os mestres esclarecem em detalhes os estados que não são meditação Dzogchen e que com ela não devem ser confundidos. Num desses estados você perambula por uma terra de ninguém da mente, onde não há pensamentos ou memórias; é um estado obscuro, embotado e apático, onde você está mergulhado na base da mente ordinária. Num segundo estado há certa quietude e leve claridade, mas é uma quietude estagnada, ainda enterrada na mente ordinária. Num terceiro você experimenta a ausência de pensamentos mas está "em outra", apenas num estado vazio de encantamento. Num quarto estado sua mente vagueia, ansiando por pensamentos e projeções. Nenhum desse é o verdadeiro estado de meditação e o praticante deve observar habilmente o que ocorre para evitar ser iludido por esses caminhos.
A essência prática da meditação no Dzogchen está contida nesses quatro pontos:
      Quando um pensamento passado cessou e ainda não surgiu um pensamento futuro, há uma brecha. Nesse preciso instante, não há uma consciência do momento presente, fresca, virgem, em nada alterada por conceitos, uma atenção luminosa e pura? Pois bem, isso é Rigpa!
Entretanto a mente não fica neste estado para sempre, porque outro pensamento subitamente surge, não é assim? Essa é a auto-irradiação de Rigpa.
No entanto, se você não reconhece esse pensamento pelo que de fato ele é, no instante em que surge, ele se transformará em um pensamento comum, como antes. Essa é a chamada "cadeia da ilusão", e é a raiz de samsara.
Se você é capaz de reconhecer a verdadeira natureza do pensamento logo que ele surge e o deixa em paz, sem persegui-lo, então quaisquer pensamentos que surjam se dissolvem automaticamente, retornando à vasta extensão de Rigpa, e são liberados.
É preciso uma vida inteira de prática para entender e realizar a profunda riqueza e a majestade desses quatro pontos tão simples e tão fundamentais, e tudo o que posso fazer aqui é dar a você uma amostra da vastidão que é a meditação Dzogchen.
Talvez o ponto mais importante é que a meditação Dzogchen vem a tornar-se um contínuo fluxo de Rigpa, como um rio que se move constantemente, dia e noite sem interrupção. Claro que isto é um estado ideal, uma vez que esse atento repouso na Visão, já introduzida e identificada, é a recompensa de muitos anos de prática permanente.
A meditação Dzogchen é sutilmente poderosa na lida com os movimentos da mente, apresentando uma perspectiva única sobre eles. Tudo o que surge é visto na sua verdadeira natureza, não como coisa separada de Rigpa, e não antagônica a ele, mas — e isso é muito importante — verdadeiramente como nada mais que a sua auto-irradiação, a manifestação de sua própria energia.
Digamos que você se encontre num estado de profunda quietude; ele não costuma durar muito, porque logo um movimento ou um pensamento surge, como uma onda no oceano. Não rejeite o movimento nem se apegue à tranqüilidade, mas deixe seguir o fluxo da sua pura presença. O estado penetrante e sereno da sua meditação é o próprio Rigpa e tudo que surge nada mais é que a auto-irradiação de Rigpa. Esse é o coração e a base da prática Dzogchen. Um modo de imaginar isso é pensar que você está cavalgando raios solares retornando para o sol: você segue todas as manifestações de volta à sua origem, imediatamente, de volta à própria raiz, à base de Rigpa. À medida que incorpora a firme estabilidade da Visão, você não é mais enganado nem distraído pelo que quer que possa surgir, e assim não cai vítima da ilusão.
Claro que no oceano há ondas violentas e ondas suaves; surgem emoções fortes como raiva, desejo e inveja. O verdadeiro praticante as reconhece não como perturbação ou obstáculo, mas como uma grande oportunidade. O fato de você reagir ao que aparece com as tendências habituais de apego e aversão é sinal não somente que está distraído, mas também de que não tem o reconhecimento e perdeu a base de Rigpa. Reagir às emoções desse modo significa reforçá-las , prendendo-nos ainda mais fortemente às cadeias da ilusão. O grande segredo do Dzogchen é ver bem através delas, tão logo aparecem, percebendo-as pelo que de fato são: a vívida e elétrica manifestação da própria energia Rigpa. À medida que você aprende a fazer isso, mesmo as emoções mais turbulentas já não conseguem dominá-lo e se dissolvem como ondas bravias que aparecem e retrocedem, mergulhando de volta na calma do oceano.
O praticante descobre — e essa é uma visão revolucionária, cuja sutileza e poder vão além do que podemos entrever — que as emoções violentas não precisam necessariamente precipitá-lo no turbilhão de suas próprias neuroses; elas podem ser usadas para aprofundar, estimular, avivar e fortalecer Rigpa. Essa energia tempestuosa torna-se matéria-prima para a energia desperta de Rigpa. Quanto mais forte e ardente a emoção, mais Rigpa se fortalece. Sinto que esse método peculiar ao Dzogchen é uma força extraordinária para libertar até os problemas emocionais e psicológicos mais inveterados e mais profundamente enraizados.
Deixe-me apresentar-lhes agora, do modo mais simples que puder, uma explicação sobre como exatamente esse processo funciona. [...]
 
No Dzogchen, a fundamental e inerente natureza de tudo é chamada "Luminosidade Base", ou "Luminosidade Mãe". Ela permeia todas as nossas experiências e é inclusive, embora não a reconheçamos, a natureza inerente também dos pensamentos e emoções que surgem em nossa mente. Quando o mestre introduz à verdadeira natureza da mente, ao estado de Rigpa, é como se ele ou ela nos desse uma chave mestra. No Dzogchen chamamos essa chave, que vai abrir a porta do conhecimento total, de "Luminosidade Caminho", ou "Luminosidade Filha". A Luminosidade Base e a Luminosidade Caminho são fundamentalmente as mesmas, é claro, e é só para fins de explanação e prática que elas são categorizadas dessa forma. Mas uma vez que temos a chave da Luminosidade Caminho, dada pela introdução do mestre, podemos usá-la à vontade para abrir a porta da natureza inata da realidade. Este abrir a porta se chama na prática do Dzogchen "o encontro da Luminosidade Base e da Luminosidade Caminho", ou "o encontro das Luminosidades Mãe e Filha". Outro modo de dizer isso é que, assim que um pensamento ou emoção aparece, a Luminosidade Caminho — Rigpa — reconhece-os imediatamente pelo que são, reconhece sua natureza inerente, a Luminosidade Base. Nesse instante de reconhecimento, as duas Luminosidades se fundem e os pensamentos e emoções são liberados em sua própria base.
É fundamental o aperfeiçoamento dessa prática de fusão das duas Luminosidades e da auto-liberação daquilo que surge na sua mente enquanto você está vivo, porque o que ocorre para todos no momento da morte é isto: a Luminosidade Base desponta com seu imenso esplendor, trazendo com ela uma oportunidade de liberação total — se, e somente se, você tiver aprendido a reconhecê-la.
Talvez fique claro agora que essa fusão das Luminosidades e da auto-liberação dos pensamentos e das emoções é meditação no seu nível mais profundo. De fato, um termo como meditação não é verdadeiramente apropriado para a prática Dzogchen porque, em última análise, implica meditar "sobre" algo, enquanto que no Dzogchen tudo é apenas e para sempre Rigpa. Desse modo, não existe meditação separada do simples ficar na pura presença de Rigpa.
A única palavra que talvez pudesse descrever isso é "não-meditação". Nesse estado, dizem os mestres, mesmo se você procurar a ilusão, não encontrará nenhuma. Mesmo se você procurar pedrinhas comuns numa ilha de ouro e jóias, não terá oportunidade de encontrá-las. Quando a Visão é constante, o fluxo de Rigpa é inesgotável e a fusão das duas Luminosidades é contínua e espontânea, toda a ilusão possível é liberada em sua própria raiz e toda a sua percepção aparece como Rigpa, sem interrupção.
Os mestres enfatizam que para estabilizar a Visão na meditação é essencial, primeiro, realizar essa prática num ambiente especial, de retiro, onde todas as condições favoráveis estejam presentes; entre as distrações e a correria do mundo, as experiências verdadeiras, por mais que você medite, não surgirão na sua mente. Segundo, embora não haja diferença no Dzogchen entre meditação e vida cotidiana, até que você tenha encontrado a verdadeira estabilidade pela prática em sessões a isso dedicadas, não conseguirá integrar a sabedoria da meditação na experiência da vida diária. Terceiro, mesmo se você pratica e é capaz de assentar no fluxo de Rigpa com confiança na Visão, mas não consegue manter esse fluxo todo o tempo, em todas as situações, combinando sua prática com a vida cotidiana, isso não servirá quando circunstâncias desfavoráveis surgirem, e você será desviado para a ilusão pelos pensamentos e emoções.
Há uma história deliciosa sobre um yogi Dzogchen que vivia modestamente, cercado no entanto por um grande número de discípulos. Um certo monge, que tinha uma opinião exageradamente favorável do próprio aprendizado e erudição, sentia ciúmes do yogi, que ele sabia não era nada letrado. Pensou: "Como pode ele, que não passa de uma pessoa comum, ter a ousadia de ensinar? Como ousar fingir ser um mestre? Vou testar seus conhecimentos, desmascarar a impostura e humilhá-lo na presença dos seus discípulos, para que eles o deixem e me sigam".
Então um dia ele visitou o yogi e lhe disse, maliciosamente:
— "Vocês do Dzogchen, tudo o que fazem é meditar?"
A resposta do yogi tomou o monge completamente de surpresa:
— "E há algo sobre que se possa meditar?"
— "Então você nem sequer medita!", exclamou o erudito, triunfante.
— "Mas quando é que alguma vez me distraio?", respondeu o yogi.
 
A Ação
À medida que a familiaridade com o fluxo de Rigpa vai se tornando realidade e permeia a vida cotidiana, as ações do praticante começam a mudar e geram estabilidade e confiança profundas.
Dudjom Rinpoche diz: "Ação é estar verdadeiramente atento aos seus próprios pensamentos. Bons ou maus, olhando para a verdadeira natureza de qualquer pensamento que surja, sem evocar o passado ou convidar o futuro, sem permitir qualquer apego à experiência de alegria nem deixar-se dominar pelas situações tristes. Assim fazendo, você tenta atingir e permanecer num estado de grande equilíbrio em que bom e mau, paz e angústia, são desprovidos de verdadeira identidade."
Atingir a realização da Visão transforma de maneira sutil, porém completa, o modo como você vê as coisas. Mais e mais eu percebi o quanto pensamentos e conceitos são tudo o que nos impede de estar sempre, muito simplesmente, no absoluto. Agora vejo com claridade porque os mestres dizem com tanta freqüência: "Procure com afinco não criar muita esperança ou medo", porque só engendram mais tagarelice mental. Quando a Visão está presente, os pensamentos são percebidos como de fato são: fugazes, transparentes e apenas relativos. Você pode enxergar através de tudo, como se tivesse olhos de raios-X. Não se apega aos pensamentos e emoções, nem os rejeita, mas acolhe-os todos no vasto abraço de Rigpa. O que levava muito a sério antes — ambições, planos, expectativas, dúvidas e paixões — já não tem nenhum poder profundo sobre você nem o deixa ansioso, uma vez que a Visão o ajudou a perceber a futilidade e a insensatez de todas as coisas, e fez nascer em você um espírito de verdadeira renúncia.
Permanecer na claridade e na confiança de Rigpa permite que todos os seus pensamentos e emoções se liberem naturalmente e sem esforço em sua vasta extensão, qual escrever na superfície da água ou pintar no céu. Se você aperfeiçoa verdadeiramente essa prática, não há jeito de acumular karma; e nesse estado de entrega despreocupada e sem intencionalidade, que Dudjom Rinpoche chama de tranqüilidade aberta e desnuda, a lei de causa e efeito já não pode sujeitá-lo de modo algum.
Não presuma que isso é fácil ou poderia de algum modo sê-lo. É muito difícil repousar sem distrações na natureza da mente, mesmo por um instante, e permitir que um pensamento ou emoção se auto-libere espontaneamente quando surge. Via de regra assumimos que apenas porque compreendemos algumas coisas intelectualmente, ou pensamos que compreendemos, nós de fato as realizamos. Essa é uma enorme ilusão. A tarefa exige a maturidade que somente anos de audição, contemplação, reflexão, meditação e prática contínua podem trazer. E nunca é demais enfatizar que a prática continuada do Dzogchen sempre requer a direção e a instrução de um mestre qualificado.
De outro modo há um grande perigo, que a tradição chama "perder a Ação na Visão". Um ensinamento tão elevado e poderoso como o Dzogchen comporta um risco extremo. Ao iludir-se de que está liberando pensamentos e emoções, quando de fato não está nem próximo de conseguir isso, e ao imaginar que está agindo com a espontaneidade de um verdadeiro yogi Dzogchen, tudo o que você faz é acumular enormes quantidades de karma negativo. Como dizia Padmasambhava, e esta é a atitude que todos devem ter: "Embora minha visão seja tão vasta quanto o céu, minhas ações e meu respeito pela causa e efeito são refinados como o grão de farinha."
Os mestres da tradição Dzogchen enfatizam incansavelmente que, sem um conhecimento completo e profundo da "essência e método da auto-liberação", através de longa prática, a meditação somente incrementa o caminho da ilusão. Isso pode parecer severo mas este é o caso, porque só a auto-liberação constante dos pensamentos pode de fato acabar com o domínio da ilusão e proteger o discípulo de mergulhar outra vez no sofrimento e na neurose. Sem o método da auto-liberação você não estará apto para enfrentar desventuras e circunstâncias infelizes quando elas surgirem, e mesmo se você já tem o hábito de meditar vai perceber que emoções como raiva e desejo estão presentes, tão fortes quanto antes. O perigo de outros tipos de meditação que não têm esse método consiste em que eles se tornam como a "meditação dos deuses", extraviando-se com facilidade em uma suntuosa auto-absorção, num transe passivo, ou numa inanidade de espírito de um tipo ou de outro, e nada disso ataca e dissolve a ilusão na sua raiz.
O grande mestre Dzogchen, Vimalamitra, falou de maneira muito precisa sobre os graus de crescente naturalidade nesse caminho de liberação: quando você domina a prática pela primeira vez, a liberação acontece simultaneamente ao que surge na mente, e aí é como reconhecer um velho amigo na multidão. Aperfeiçoando e aprofundando a prática a liberação virá junto com o surgimento das emoções e pensamentos, como uma serpente desenrolando-se. E, no estado final de mestria, a liberação é como um ladrão que entra numa casa vazia; nada do que surge traz males nem benefícios para o verdadeiro yogi Dzogchen.
Mesmo nos maiores yogi, a alegria e o sofrimento, a esperança e o medo, ainda aparecem exatamente como antes. A diferença de uma pessoa comum e o yogi está em como eles vêem suas emoções e reagem a elas. Uma pessoa comum , de maneira instintiva, irá aceitá-las ou rejeitá-las, suscitando assim apego ou aversão que resultarão na acumulação de karma negativo. Um yogi, no entanto, percebe tudo o que surge no seu estado natural e originalmente puro, sem permitir o apego entre em sua percepção.
Dilgo Khyentse Rinpoche descreve um yogi vagando num jardim. Apesar de estar totalmente desperto para o esplendor e a beleza das flores, apreciando suas cores, formas e perfumes, ele não tem pelo jardim nenhum vestígio de apego, ou qualquer pensamento superveniente. Como diz Dudjom Rinpoche: "Em qualquer percepção que surja, você deve ser como uma criança que entra num templo lindamente decorado: ela olha, mas o apego não entra de modo algum em sua percepção. Então você deixa tudo ali, fresco, natural, vivo e intocado. Quando você deixa tudo no seu estado próprio, a forma não muda, a cor não esmaece, o brilho não declina. Tudo o que surge não é maculado por nenhum apego, e assim todas as coisas que você percebe surgem como a desnuda sabedoria de Rigpa, que é a inseparabilidade entre luminosidade e vacuidade."
A confiança, o contentamento, a vasta serenidade, a força, o profundo humor e a certeza que advêm da realização direta da Visão de Rigpa são o maior tesouro da vida, a maior das felicidades, que uma vez obtida nada pode destruir, nem mesmo a morte. Dilgo Khyentse Rinpoche diz: "Uma vez que você obtém a Visão, embora as percepções ilusórias do samsara possam surgir na sua mente, você será como o céu: não fica particularmente lisonjeado quando surge nele o arco-íris, nem particularmente desapontado quando as nuvens o encobrem. Há uma profunda sensação de contentamento. Você ri por dentro quando vê a fachada do samsara e do nirvana; a Visão o manterá constantemente maravilhado com um suave sorriso interior se esboçando, todo o tempo."
Como diz Dudjom Rinpoche: "Tendo purificado a grande ilusão, que é o lado escuro do coração, a luz radiante do sol não-obscurecido nascerá continuamente".
Quem leva a sério as instruções sobre Dzogchen e sua mensagem sobre o morrer [...] irá se sentir inspirado, espero, para buscar, encontrar e seguir um mestre qualificado, e para comprometer-se a passar por um completo treinamento sob orientação dele ou dela. O coração do treinamento Dzogchen consiste em duas práticas, Trekchö e Tögal, que são indispensáveis a uma compreensão profunda do que ocorre durante os bardos. Só posso dar aqui uma brevíssima introdução a ambas. A explicação completa só é dada de mestre a discípulo, quando este já se comprometeu de todo o coração com os ensinamentos e atingiu um certo estágio de desenvolvimento. O que expliquei neste capítulo — "A Essência Mais Profunda" — é a essência da prática do Trekchö.
Trekchö significa atravessar a ilusão essencialmente com força irresistível da visão Rigpa, como uma faca corta manteiga ou um mestre de karatê quebra uma pilha de tijolos. Todo o fantástico edifício da ilusão desmorona, como se você tivesse pulverizado seus alicerces. A ilusão é atravessada e a pureza primordial e a natural simplicidade da mente são desveladas.
Somente quando o mestre determinar que você tem uma base firme na prática do Trekchö é que ele ou ela o introduzirá na prática avançada do Tögal. O praticante do Tögal trabalha diretamente com a Clara Luz — que habita de modo inerente em todos os fenômenos e está "espontaneamente presente neles" — usando exercícios específicos e muito poderosos para revelá-la dentro de si mesmo.
O Tögal tem a qualidade de ser instantâneo, de trazer realização imediata. Em vez de viajar por uma cordilheira para alcançar um pico distante, o Tögal leva-o até lá num salto. O efeito de Tögal é tornar alguém capaz de efetivar todos os diferentes aspectos da iluminação em si próprios no decurso de uma vida. Por isso é considerado o método único e extraordinário do Dzogchen; enquanto o Trekchö é a sua sabedoria, o Tögal são seus meios hábeis. Exige imensa disciplina e é geralmente praticado em retiro.
No entanto, nunca é demais ressaltar que o caminho do Dzogchen só pode ser seguido sob a orientação direta de um mestre qualificado. Como o Dalai Lama diz: "Um fato que você tem de ter em mente é que só se pode atingir a realização em práticas Dzogchen como o Trekchö e o Tögal com a direção de um mestre experiente, e recebendo a inspiração e a bênção de uma pessoa viva que possui essa realização".
 
O corpo de arco-íris
Através dessas práticas avançadas de Dzogchen, praticantes realizados podem levar suas vidas a um fim extraordinário e triunfante. Quando morrem, capacitam seu corpo a ser reabsorvido na essência de luz dos elementos que o criaram; em conseqüência, esse seu corpo material se dissolve em luz e desaparece por completo. Esse processo é conhecido como "corpo de arco-íris", ou "corpo de luz", por que a dissolução é comumente acompanhada por manifestações espontâneas de luz e de arco-íris. Os antigos tantras do Dzogchen e os escritos dos grandes mestres distinguem diferentes categorias desse fenômeno espantoso e sobrenatural que, numa certa época, embora não habitual, era razoavelmente freqüente.
Via de regra uma pessoa que sabe que está prestes a obter um corpo de arco-íris pede para ser deixada sozinha por sete dias, sem ser perturbada, em um quarto ou tenda. No oitavo dia somente são encontrados os cabelos, as unhas e as impurezas do corpo.
Isso pode ser muito difícil de acreditar atualmente, mas a história dos fatos da linhagem Dzogchen está cheia de exemplos de indivíduos que obtiveram o corpo de arco-íris e, como Dudjom Rinpoche costumava sempre salientar, não se trata apenas de história antiga. Entre os muitos exemplos, gostaria de escolher um dos mais recentes, com que tive ligação pessoal. Em 1952 houve um famoso exemplo de corpo de arco-íris no Tibet oriental, testemunhado por muita gente. O homem que conseguiu, Sönam Namgyal, era o pai do meu tutor e irmão de Lama Tseten [...].
Ele era uma pessoa muito simples e humilde, que ganhou sua vida como escultor itinerante, talhando em pedra mantras e textos sagrados. Alguns dizem que teria sido caçador em sua juventude, recebendo depois ensinamentos de um grande mestre. Ninguém nunca soube que ele era um praticante; era de fato o que se chama "um yogi oculto". Algum tempo antes da sua morte, viam-no subindo as montanhas e sentando-se, sua silhueta contra o céu, com os olhos fixados no espaço. Compunha suas próprias canções e cânticos, e entoava-os em lugar dos tradicionais. Ninguém tinha idéia do que ele estava fazendo. Então ficou doente, ou pelo menos foi isso o que pareceu, mas estranhamente foi ficando cada vez mais feliz. Quando a doença se agravou, sua família chamou mestres e médicos. Seu filho lembrou-lhe que precisava recordar-se de todos os ensinamentos ouvidos; ele sorriu, dizendo: "Esqueci-me de todos, e de qualquer modo não há nada a lembrar. Tudo é ilusão, mas estou confiante de que está tudo bem".
Bem próximo do momento de sua morte, aos setenta e nove anos, disse: "Tudo o que peço é que, quando eu morrer, não mexam no meu corpo por uma semana". Quando morreu, sua família embrulhou seu corpo e convidou lamas e monges para virem fazer práticas para ele. Puseram o corpo numa pequena sala da casa, e foi impossível deixar de notar que, tendo sido ele um homem alto em vida, não houve problema em fazê-lo caber no aposento, com se tivesse se tornado menor. Ao mesmo tempo, via-se em torna da casa uma extraordinária manifestação de luz das cores do arco-íris. Quando no sexto dia olharam dentro da sala, viram que o corpo diminuíra de tamanho. Na manhã do oitavo dia, quando o enterro deveria acontecer, os agentes funerários chegaram para pegar o corpo. Ao retirarem os envoltórios, verificaram que nada havia ali além das unhas e do cabelo.
Meu mestre Jamyang Khyentse pediu que esses restos lhes fossem trazidos, e verificou que se tratava de um caso de corpo de arco-íris.
 
Sogyal Rinpoche