0 que se segue é um resumo dos comentários e pensamentos de Sua Santidade, o Dalai Lama, sobre os problemas com que se defronta a sociedade de hoje. Esse material foi reunido a partir das numerosas palestras que Sua Santidade proferiu durante sua visita à Europa.
"Durante minhas viagens ao exterior, tenho notado muitas coisas que parecem diferenciar o Ocidente do Oriente, e particularmente o Tibete. É relativamente fácil entender essas diferenças superficiais em termos de variação cultural e condições históricas e geográficas, as quais modelam cada modo de vida e forma de comportamento particulares, mas eu sinto que de longe o mais relevante ponto a ser ressaltado é a unidade dessas variações culturais e desses povos. Essa unidade é basicamente a busca humana da felicidade, pela qual todos nós temos um inegável desejo. Por isso, eu sempre tento comunicar-me com qualquer "estrangeiro-que encontro assumindo que somos ambos simplesmente seres humanos.
Hoje, estamos todos enfrentando vários problemas sérios, como a crise energética, a poluição e a superpopulação. Na medida em que as dificuldades da vida têm causas naturais, elas devem ser aceitas e deve-se adaptar a elas o máximo possível. Mas muitos dos nossos problemas são engendrados pelo homem - criados pela nossa própria ignorância, avidez e ação irresponsável.
Muitas dificuldades originam-se de conflitos ideológicos ou até mesmo religiosos, e os homens lutam uns contra os outros por meios ou métodos, perdendo de vista seus fins e suas metas humanas.
Eu sinto que, embora nossos problemas sejam graves e complexos, está ao nosso alcance o poder de controlá-los e solucioná-los. A solução só é possível se basear-se numa abordagem que transcenda as exigências egoístas e regionais. A confrontação direta com a universalidade de nossa condição, e com a unidade fundamental de nossas necessidades e desejos, é vital para nosso sucesso.
Muitas dificuldades originam-se de conflitos ideológicos ou até mesmo religiosos, e os homens lutam uns contra os outros por meios ou métodos, perdendo de vista seus fins e suas metas humanas.
Eu sinto que, embora nossos problemas sejam graves e complexos, está ao nosso alcance o poder de controlá-los e solucioná-los. A solução só é possível se basear-se numa abordagem que transcenda as exigências egoístas e regionais. A confrontação direta com a universalidade de nossa condição, e com a unidade fundamental de nossas necessidades e desejos, é vital para nosso sucesso.
A necessidade de se estabelecer relações caracteristicamente homem-a-homem está se fazendo cada vez mais urgente. Hoje o mundo está se tornando menor e mais interdependente. Antigamente, os problemas eram na maioria locais e, por isso, enfrentados a nível local. Mas agora a situação se transformou e nós nos tornamos estreitamente conectados a nível internacional. Os problemas de uma nação já não podem mais ser completamente resolvidos apenas por ela mesma. Assim, sem um senso de responsabilidade universal, nossa própria existência e sobrevivência tornam-se ameaçadas.
Responsabilidade universal é, basicamente, sentir pelo sofrimento de outras pessoas o mesmo que sentimos pelo nosso. É o reconhecimento de que mesmo nosso inimigo é inteiramente motivado pela busca da felicidade. Nós devemos reconhecer que todos os seres querem a mesma coisa que nós queremos. Esse é o caminho para alcançar um verdadeiro entendimento, livre de considerações artificiais.
Na base da filosofia Budista está a concepção da compaixão pelos outros.
Está aí subentendido que a felicidade individual vem automaticamente como resultado dessa consideração não-egoísta. 0 verso tradicional seguinte transmite essa mensagem:
Está aí subentendido que a felicidade individual vem automaticamente como resultado dessa consideração não-egoísta. 0 verso tradicional seguinte transmite essa mensagem:
"Se você é incapaz de trocar sua alegria pelo sofrimento de outros seres,
Você não tem chance de alcançar o Budado,
Ou mesmo a felicidade,
No decorrer desta vida".
Você não tem chance de alcançar o Budado,
Ou mesmo a felicidade,
No decorrer desta vida".
0 verso expressa o ideal de considerarmos as necessidades dos outros como consideramos as nossas próprias necessidades. Colocar esse ideal em prática irá não apenas propiciar a superação de nossos problemas diários e a obtenção de uma consistente quietude mental, mas irá também orientar-nos em direção à meta suprema do Budado, a iluminação plena.
Convém notar que a compaixão encorajada pelo Budismo Mahayana não é o amor que usualmente nós sentimos pelos amigos e pela família. O amor que se limita aos que nos são próximos e queridos é invariavelmente mesclado com ignorância e apego. 0 amor que está sendo aqui advogado é o do tipo que somos capazes de sentir até mesmo por quem nos tenha ofendido. Ademais, com respeito a esse ponto, não se deve discriminatoriamente pensar apenas em seres humanos, mas em todos os seres vivos. Em essência, todos os seres sencientes têm o mesmo anelo pela felicidade e a mesma potencialidade para alcançar um estado iluminado de consciência.
Cultivar um modo afável de ser não envolve nenhuma religiosidade sentimental normalmente associada com esta atitude, e nem é apenas para pessoas que acreditam em religião; é para todos, independentemente de raça, religião ou afiliação política. É para qualquer um que se considere um membro da família humana e que por isso veja as coisas dentro de um contexto mais amplo. A natureza afável vem como uma conseqüência de ter-se em conta questões tais como: "Não fomos nós criados com compaixão por nossos pais, desde o momento em que nascermos?" A compaixão não é um consolo para quem, se encontra sem esperanças e desolado, ou quando se é velho e só?". A genuína compaixão é uma força dinâmica que deveríamos desenvolver e usar, mas com freqüência tendemos a desprezar sua importância, particularmente em nossos primeiros anos, quando estamos experienciando um falso senso de segurança.
A fundamentação lógica para a compaixão universal é baseada no simples princípio da democracia espiritual. Este vem a ser o reconhecimento do fato de que cada ser vivente tem igual direito à felicidade, e anseia por ela. É proveniente da percepção de que as necessidades egoístas de um indivíduo, mesmo se esse indivíduo for nós mesmos, não pode jamais sobrepujar a importância das necessidades da coletividade. A verdadeira aceitação do princípio da democracia requer que nós pensemos e atuemos em termos do bem comum. A compaixão e a responsabilidade universal exigem um compromisso com o sacrifício pessoal e o desapego de interesses egoístas.
A partir desse ponto de vista, a felicidade individual, embora de forma alguma inferior em qualidade ou quantidade, deixa de ser alvo de um esforço deliberado e consciente. No entanto, ela se torna automaticamente um sub-produto. Uma perspectiva iluminada não é benéfica apenas para aqueles aos quais ela é compassivamente dirigida, mas é igualmente benéfica para o próprio indivíduo. Eu acredito que a nossa experiência cotidiana confirma que uma atitude egoísta frente aos problemas pode ser destrutiva não apenas para a sociedade, mas igualmente para o indivíduo. 0 egoísmo não resolve nossos problemas, ele os multiplica. Se, quando encontramos uma dificuldade, nós apontamos o dedo em nossa direção ao invés de apontá-lo na direção dos outros, ganhamos controle sobre nós mesmos. Além disso, adquirimos força interior para aceitar nossas faltas e iniciar o auto-aperfeiçoamento.
A serenidade se faz presente em situações que, sob outras condições, tornam difícil e problemático o controle pessoal. Se, por outro lado, nós culpamos os outros, as emoções destrutivas da ira, do ódio e dos ciúmes aumentam , e nossa estabilidade mental sofre. Esse tipo de agitação leva até mesmo a complicações físicas observáveis, tais como tensão e perda do sono. Assim, deveria ser claro que, em última instância, o resultado final será nosso próprio sofrimento. No que concerne aos outros, o desenvolvimento de um estado negativo da mente certamente será perturbador para nossos amigos e vizinhos. Aceitar a responsabilidade e manter o respeito pelos outros trará paz a todos os envolvidos. Essa é a essência do Budismo Mahayana.
Um outro verso muito conhecido apresenta uma variação sobre esse tema:
"Eu considero todos os seres vivos mais valiosos que pedras preciosas;
Uma motivação para atingir a meta suprema. Assim eu consigo, a todo momento, olhar por eles.
A questão é que deveríamos ter em mente as qualidades Positivas de quem nos fere ou a nós se opõe, pois isso é importante para desenvolvermos a essencial atitude de humildade.
Um segundo verso nessa linha é o seguinte:
Se alguém a quem eu ajudei com o melhor de mim,
E de quem eu espero muito,
Fere-me de um modo inconcebível,
Que eu possa considerar essa pessoa como meu melhor professor."
Uma motivação para atingir a meta suprema. Assim eu consigo, a todo momento, olhar por eles.
A questão é que deveríamos ter em mente as qualidades Positivas de quem nos fere ou a nós se opõe, pois isso é importante para desenvolvermos a essencial atitude de humildade.
Um segundo verso nessa linha é o seguinte:
Se alguém a quem eu ajudei com o melhor de mim,
E de quem eu espero muito,
Fere-me de um modo inconcebível,
Que eu possa considerar essa pessoa como meu melhor professor."
Quando estamos de bom humor e nossos amigos mais chegados não estão nos criticando, não há nada para nos tornar conscientes de nossos defeitos. É apenas quando alguém nos critica e expõe nossos erros que somos capazes de descobrir nossos problemas e confrontá-los. Assim sendo, nosso inimigo é nosso maior amigo. Ele nos proporciona o necessário teste da força interior, da tolerância e do respeito pelos outros. Em vez de nos sentirmos irados com ele, deveríamos respeitá-lo e ser-lhe gratos.
Várias religiões do mundo têm encorajado o desenvolvimento de uma consciência iluminada, e da responsabilidade universal. Apesar das diferentes concepções do universo, como a idéia de vida após a morte, etc., todas as religiões ensinam o indivíduo, essencialmente, a tomar-se um ser humano melhor, a desenvolver um modo afável de ser. Assim, eu sinto que a religião tem um papel vital a desempenhar na confrontação do indivíduo com os sérios problemas do século XX.
Não existe fronteira, nacional ou criada pelo homem, em religião. A religião pode e deveria ser usada por qualquer um que a ache benéfica, Seria possível, por exemplo, utilizar-se algumas das eficazes técnicas budistas de meditação sem tornar-se budista. 0 que é importante é que cada buscador escolha o caminho mais adequado à sua própria pessoa.
Não existe fronteira, nacional ou criada pelo homem, em religião. A religião pode e deveria ser usada por qualquer um que a ache benéfica, Seria possível, por exemplo, utilizar-se algumas das eficazes técnicas budistas de meditação sem tornar-se budista. 0 que é importante é que cada buscador escolha o caminho mais adequado à sua própria pessoa.
A religião é, na melhor hipótese, uma ferramenta para nos ajudar a controlar nossas mentes. 0 objetivo e transformar pensamentos auto-destrutivos como de ira, avidez, orgulho, ciúmes e ódio em seus opostos. Quando reconhecemos a natureza destrutiva das emoções negativas, nos esforçarmos por controlá-las e transformá-las são os passos lógicos e naturais a seguir. No Budismo Mahayana há a condição adicional de que o controle próprio deve ser exercido em benefício de todos os outros seres.
Na realidade, não é necessário ser um seguidor de nenhuma religião em particular para se alcançar um estado de iluminação da consciência. Isso é verdade porque a qualidade especial da sabedoria é essencialmente uma qualidade humana. Ter compaixão, humildade e ser honesto, e considerar a ira, o ciúme e o orgulho como o inimigo diário comum é desenvolver o mais nobre potencial da raça humana. 0 que me tem impressionado durante minhas viagens ao exterior é a excessiva preocupação com o progresso tecnológico da civilização ocidental. Apesar do desejo, freqüentemente afirmado, de ir além dessa ênfase materialista, o avanço científico e tecnológico parece ser o maior orgulho do mundo ocidental.
Esse ponto de vista encontra-se em oposição direta ao do meu próprio país, o Tibete. Nós éramos tecnologicamente atrasados, mas espiritualmente muito ricos. Juntamente com o Budismo, o qual deitou raízes profundas no pais, muitas ciências, artes e idéias antigas, provenientes de culturas vizinhas, encontraram receptividade no Tibete. Meu país tornou-se o cadinho das grandes civilizações asiáticas. Até recentemente, nós tibetanos tomamos como uma verdade inquestionável a riqueza espiritual de nosso país e sentimos como superficial e insignificante o progresso material.
Eu vejo um extraordinário potencial de benefícios proveniente da tecnologia, mas apenas se esta harmonizar-se sempre com o desenvolvimento espiritual. 0 progresso material deveria ser visto principalmente como uma fonte de conforto físico, mas não deveria ser confundido com a paz mental.
As mais nobres qualidades humanas, a honestidade, a sinceridade e um coração bondoso, jamais serão originários do dinheiro ou serão produzidos por máquinas. Apenas a própria mente é capaz de dar origem a essas qualidades.
As mais nobres qualidades humanas, a honestidade, a sinceridade e um coração bondoso, jamais serão originários do dinheiro ou serão produzidos por máquinas. Apenas a própria mente é capaz de dar origem a essas qualidades.
Esse desenvolvimento mental não é fácil e também a compaixão não pode ser rapidamente incorporada ao ser. Ambos requerem uma corajosa e persistente dedicação à verdade, mesmo em meio à desonestidade e à agressão competitiva.
Mas esse é o único caminho para nossa sobrevivência futura.
Mas esse é o único caminho para nossa sobrevivência futura.
A responsabilidade universal é fundamentada na compreensão do desejo, do direito e da possibilidade de se obter a felicidade para todos os seres.
Quando nós reconhecemos a importância desse ponto de vista, um verdadeiro sentido de compaixão torna-se possível e, finalmente, torna-se uma realidade natural.
Quando nós reconhecemos a importância desse ponto de vista, um verdadeiro sentido de compaixão torna-se possível e, finalmente, torna-se uma realidade natural.
(*Tradução do artigo publicado no "Theosophical Network Ed. n. 6, Outubro de 1987, EUA, por Santina Casari)
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