Em setembro de 1992, a revista Common Boundary incluiu, numa matéria de Mark Matousek sobre os segredos da morte, uma desafiadora entrevista com Sogyal Rinpoche aqui traduzida para Bodisatva.

Pergunta: Vamos começar falando sobre os desafios de ser um professor oriental no Ocidente. É verdade que há problemas que são peculiares aos estudantes ocidentais?
Sogyal Rinpoche: O que vem à memória é a baixa auto-estima, o desprezo e a raiva de si mesmo. Estes sentimentos quase nunca são encontrados nas pessoas do meu país. Sua Santidade o Dalai Lama estava em uma conferência onde ouviu pela primeira vez comentários sobre esse problema, e apesar de entender inglês muito bem, pediu ao tradutor que repetisse o que fora dito. Ele pensou que não tinha compreendido bem.

P: Como o senhor explica essas diferenças entre o Oriente e o Ocidente?
S.R: Nos ensinamentos budistas põe-se grande ênfase na preciosidade do nascimento humano e no potencial de cada ser. A natureza de Buda existe em todos nós juntamente com a sabedoria. O extraordinário é que Buda foi um ser humano como nós. Ele não reverenciou nenhuma divindade, mas defendeu o direito de viver de cada ser. A natureza de Buda que existe em cada pessoa é tão boa quanto qualquer outra natureza de Buda. Em nossa cultura, há uma ênfase na natureza divina de cada pessoa. A mente humana possui dois aspectos: o relativo, onde existe confusão, e o absoluto, que é igual ao céu, e os ensinamentos nos conduzem a esta natureza igual ao céu. Isto nos faz mais generosos, nos faz perceber que a confusão não é o fim do mundo. No Ocidente, há uma falta de conhecimento sobre o que é “self” realmente, e sobre a natureza essencial da mente. Quando os ocidentais se sentem confusos e deprimidos, acreditam que estão presos a essas emoções para sempre. Além disso, os ocidentais parecem muito sozinhos, vivendo competitivamente numa sociedade que exige muito deles. Apesar de nesta sociedade viverem muitos intelectuais de peso, muitos deles estão emocionalmente feridos.

P: Você quer dizer que nós, ocidentais, desconhecemos nossa verdadeira identidade?
S.R: Sim, de certa maneira. Apesar de os psicólogos e psicoterapeutas estarem fazendo um trabalho lindo e serem capazes de curar certos sintomas desse desespero, eles são incapazes de dar aos indivíduos a confiança fundamental neles mesmos. Esta contribuição, somente um treinamento espiritual poderia dar.

P: Existe uma falta de literatura espiritual no Ocidente, e isto é uma falha importante. Há alguma coisa nova a ser dita sobre o assunto?
SR: Desde que parti do Tibete para a Índia, tive a sensação de que viria a ensinar no Ocidente. Quando isso aconteceu, senti-me frustrado com o fato dos ensinamentos budistas em particular, e a sabedoria oriental em geral, não estarem totalmente traduzidos. De certa forma, os ocidentais não estavam capacitados para entender a importância e o sentido de algumas grandes obras orientais. Meus próprios ensinamentos foram um processo de aprendizagem de como me comunicar com as pessoas. Quando vim para o Ocidente, em 70, o tema da morte tinha sido negligenciado e necessitava ser transmitido. Quando se transmitem conhecimentos sobre a morte não se pode deixar de transmitir conhecimentos sobre a vida, pois as duas estão intimamente ligadas. Ao longo de muitos anos, ensinei sobre morrer e a morte. Os ensinamentos cresceram, e lá por volta de 76, pensei em reuni-los em um livro. Mas não conseguia aprontá-lo, eu precisava entender melhor a mente ocidental. Gradualmente, entrei em contato com hospitais para idosos, trabalhei com moribundos, e lentamente comecei a me sentir capaz de estabelecer uma ponte entre Ocidente e Oriente. Apesar de ter consultado meus mestres o tempo todo, o trabalho real começou três anos atrás. Quis criar algo autêntico e não fazer apenas meu livro, mas o livro de todos os meus mestres e de todas as tradições tibetanas. Muitos livros são traduzidos para o inglês, mas a sua mensagem real permanece longe, escondida.

P: Poderíamos dizer que os tibetanos têm o mais preciso conhecimento para entender a morte e os estados depois da morte, e também o trabalho a ser feito com os moribundos. Existe em seu livro material que não foi revelado ao Ocidente anteriormente?
S.R: Sim, eu não teria escrito este livro se o Livro Tibetano dos Mortos não tivesse sido traduzido no Ocidente. Não teria me sentido bem revelando estes ensinamentos. Mesmo que muitos não tenham entendido o Livro Tibetanos dos Mortos, eles sentiram que ali existia qualquer coisa de extraordinário, embora o livro seja apenas uma pequena parte do ciclo de ensinamentos. Todo o conjunto de conhecimentos está contido na tradição oral feita de mestre a discípulo. Este contexto não tinha sido revelado anteriormente para o Ocidente de forma plena. Tentei não esconder nenhum conhecimento, apesar de certas práticas não poderem ser reveladas a não ser que a pessoa tenha um mestre. Mas, apesar de tudo, o livro revela o processo da morte em toda a sua extensão.

P: Você consegue acreditar que no Ocidente poderemos um dia trabalhar com os mortos nos moldes que seu livro ensina?
S.R: Tenho muita esperança de que isto aconteça. Muitas das mensagens de paz do Dalai Lama foram consideradas idealizadas quando ele começou a se dirigir ao Ocidente. Com o correr dos anos, um grande número desses ideais se tornaram realidade. Muitas modificações estão ocorrendo no Ocidente, as pessoas estão começando a ter mais consciência. A situação está se tornando tão desesperadora que elas estão querendo mudar. Eu rezo por uma revolução pacífica na qual mudaremos inteiramente nossa atitude com os moribundos, com os problemas da morte, e com os cuidados com os que estão vivos. Neste livro dou conselhos práticos e tenho muita esperança de que isto possa nos despertar.

P: Quais são as suas qualificações pessoais para transmitir esse conhecimento?
S.R: Sendo um lama reencarnado, tenho o privilégio de ter crescido junto a um dos maiores mestres tibetanos, Jamyang Khyentse. Devido aos cuidados que teve durante meu crescimento, desde meus primeiros anos os ensinamentos que recebi penetraram profundamente em mim. Apesar de ter transmitido muitas técnicas neste livro, eu quis igualmente comunicar o sentimento, o gosto e a visão que vivi. Eu fui envolvido por tanto carinho e amor por esses mestres, que sinto que devo fazer alguma coisa para continuar a transmitir sua sabedoria. Como fui educado no Ocidente, estou em uma posição única para fazer isto — ser o tradutor. É interessante, porque quando os primeiros ensinamentos do budismo vieram da Índia para o Tibete, os mestres eram conhecidos como “tradutores”. Eu sinto isso como alguma coisa que preciso repartir com outras pessoas. Nestes tempos de desespero, não podemos ter conhecimentos escondidos.

P: Para os ocidentais, os estados de consciência descritos no seu livro podem parecer assustadores. Focar a mente e controlá-la, como fazem os mestres, parece fora do alcance do homem comum.
S.R: Tente olhar de outra maneira: o Ocidente aperfeiçoou um tipo de tecnologia — máquinas extraordinárias, aviões, etc. — que um oriental pode ter dificuldades em conceber. Mas o Oriente aperfeiçoou a tecnologia espiritual. Vemos os fenômenos espirituais como coisa normal, é nosso modo de viajar de avião. No budismo, os assuntos místicos se revelam lentamente, através do bom senso. Está tudo ao nosso alcance, se praticarmos.

P: É verdade que você certa vez viu um lama voltar à vida?
S.R: Sim, o lama Tseten. Ele era o tutor da esposa do meu mestre. Quando estava morrendo, estendeu a mão para ela e disse suas últimas palavras. Ela quis ir contar ao mestre, mas, segurando sua mão, ele disse: “Não, não vá perturbá-lo. Para um lama não existem distâncias”, e neste momento morreu. Imediatamente ela foi buscar o mestre, que veio e o chamou de volta à vida. Foi extraordinário. Na presença de um mestre como esse, essas coisas acontecem quase normalmente. Infelizmente, um dos perigos de nossa época é que poucas pessoas vivem os ensinamentos com tanta perfeição. Eu rezo para que alguns de meus alunos possam aprender esses ensinamentos através da prática e garantir a continuidade de sabedoria.

P: É desanimador para você, tendo sido criado em uma cultura sagrada, viver e trabalhar no Ocidente?
S.R: É um desafio, mas sempre tento olhar pelo lado positivo. Os ensinamentos dizem que quando o mundo está cheio de sofrimento, toda a desgraça deve ser transformada em caminho da iluminação. Quando vejo o perigo, eu me sinto mais decidido que nunca a fazer alguma coisa. Isso me encoraja, embora seja muito difícil ensinar para os ocidentais. É um erro vermos os dois hemisférios tão separados, especialmente porque, hoje em dia, todos estamos no mesmo barco.

P: É verdade que os ocidentais têm alguma força que os orientais não têm?
S.R: Sim, é certo. Como não nasceram numa tradição budista, existe uma dedicação e um senso de responsabilidade pessoal que me dá muita esperança.

P: Sem a crença na reencarnação, é possível pensar na morte sabiamente?
S.R: É difícil para as pessoas terem a convicção de que há vida após a morte, ou reencarnação, mas eu penso que existe um instinto, uma abertura intuitiva em muitas pessoas. Qualquer aspiração espiritual vem desta intuição. Mais do que a crença em reeencarnação, é importante entender que existe justiça (carma). Mesmo em mortes de jovens, como estamos vendo com a aids, há uma oportunidade de passar por essa experiência com graça e envolvimento com os futuros renascimentos. O pensamento de que esta vida é tudo não faz sentido. Como Buda disse, o que você é é o que você foi, e o que você virá a ser é o que faz agora. É mais importante viver uma vida digna do que acreditar em reencarnação.

P: Mas em termos de trabalhar com pessoas que estão morrendo, na crença tibetana dos bardos, acreditar em reencarnação parece ser um ponto central.
S.R: É verdade, minha esperança é que os céticos permaneçam abertos e dêem aos ensinamentos o benefício da dúvida. A abertura do coração e da mente vai permitir que a visão correta possa surgir, ajudando a preparar as pessoas para a vida e a morte.

P: Sendo um lama reencarnado, você tem registro, memória de suas vidas passadas?
S.R: Eu já refleti muito sobre isso. Mais do que recordar eventos específicos eu percebi que quando ensino, as palavras parecem brotar sem que eu tenha que estudar muito. Nós acreditamos que o que permanece na reencarnação não sejam os detalhes das vidas pessoais, mas a sabedoria dos ensinamentos. Um reencarnado deve também praticar para novamente despertar a sabedoria adquirida em outras vidas. Sua Santidade o Dalai Lama percebeu que pode compreender facilmente fórmulas consideradas muito difíceis.

P: Assim como muitas pessoas vivem negando a morte, existem outras que cometem o erro de pensar que a morte é fácil e acontecerá por si mesma. Qual a atitude correta a tomar com relação à morte?
S.R: Quando as pessoas estão morrendo, a pergunta principal é se suas vidas tiveram sentido. Portanto, estudar a morte é uma forma de preparar-se para a vida. Quando você analisa a realidade de perto, descobre que a vida é uma série de pequenas mortes, cada uma delas oferecendo a oportunidade de aprender o “deixar ir”, o desapego. Por negligenciarmos isto, o assunto morte adquiriu tons mórbidos. Sua Santidade disse que para ele a morte parece tão natural como trocar uma roupa velha. Mas precisamos ser realistas. Somente dizer que aceitamos a morte não é suficiente, precisamos aceitá-la em nosso coração e libertar-nos do apego a esta vida. Algumas pessoas percebem esse processo de modo muito superficial.

P: Existe uma ligação entre a negação da morte e a destruição que observamos no meio ambiente?
S.R: Sim, a destruição do ambiente ocorre porque nós não percebemos a preciosidade de todas as vidas. Muito poucas pessoas vivem com a constante consciência de que suas ações têm conseqüências. Se não levarmos a morte a sério, nós nos tornaremos irresponsáveis e egoístas com relação à vida. Nós precisamos cuidar de nós mesmos e, se não o fizermos, também não seremos atenciosos com o planeta. Padmasambava dizia que não são os tempos que são ruins, são as pessoas.

P: Você tem medo da morte?
S.R: Certamente, e é isto que me faz praticar, este medo pode ser muito construtivo. Pensar na morte ajuda a estabelecer prioridades. Percebendo que podemos morrer a qualquer momento, nos damos conta do quanto a vida é preciosa. É claro, não importa o quanto vivamos, mas o “bem” que possamos viver. O que formos nesta vida é o que seremos na próxima.

P: Existem pessoas no Ocidente que pensam na lei do carma como um sistema artificial construído para explicar injustiças que não podem ser explicadas, para dar sentido ao que não tem sentido. Esta crença que o carma é uma fantasia pode fortalecer o desespero dos ocidentais?
S.R: Carma é simplesmente a justiça natural. Muitas pessoas, ocidentais ou não, percebem isto acontecendo em suas vidas. Quando observam suas próprias ações vêem que, se ferirem ou ajudarem os outros, isto voltará para elas. Elas têm esta experiência.

P: Um exemplo de como o carma funciona pode ser encontrado no paradoxo da destruição do Tibete e a subseqüente popularidade do budismo tibetano no Ocidente.
S.R: Isto é verdade, é surpreendente, mas nós não podemos esquecer as pessoas que sacrificaram suas vidas para salvar essas práticas. Eu rezo para que no futuro o Tibete venha a ser um tipo de laboratório espiritual onde todos os ensinamentos possam trabalhar juntos.

P: Você odeia os chineses?
S.R: Não, é uma grande civilização, mas o povo foi enganado. Os chineses agora têm a oportunidade de aprender com o exemplo do Tibete, que optou pela gentileza, bondade e não-agressão. Isso vai ser um benefício para a China, particularmente agora que a atenção do mundo não vai se desviar do problema até que seja resolvido. Eu espero que algum dia nós sejamos capazes de ver a China como nossa grande vizinha e uma fonte de imensa sabedoria. Enquanto isso, devemos lembrar que em tempos de dor, nosso inimigo é, na verdade, nosso maior professor.

(Tradução de Heloisa Helena Tigre)